As articulações para composição de chapas de candidatos ao Senado da Paraíba indicam que partidos e coligações vão optar por caminhos tortos.
Embora ainda não explicitamente reveladas, os movimentos já indicam claramente que pelo menos duas das três maiores forças políticas não devem fazer coligações tradicionais, ortodoxas, conforme a legislação, mas alianças cruzadas, consagrando relações partidárias um tanto à margem da lei.
Na verdade, numa linguagem mais direta, o que se configura são a formação de chapas capengas ou pernetas com o intuito de permitir traições eleitorais, meio consentidas e previamente escancaradas, mas traições.
Há sinais evidentes, por exemplo, que a chapa de senador do PL, que deveria apresentar dois postulantes ao cargo, tende a entrar em disputa na forma capenga, com apenas um candidato, que é o ex-ministro Marcelo Queiroga. Duas razões explicariam a tendência. Uma delas é que o ministro Marcelo Queiroga trabalha para ser o único candidato com a insígnia bolsonaristas, na tentativa de concentrar os votos apaixonadas e aumentar chances de sucesso nas urnas. A outra, ainda subtendida, mas se evidenciando, é que o candidato a governador, Efraim Filho, não se esforça para ter um segundo nome na chapa. É lícito, então, desconfiar que Efraim esteja planejando restituir ao deputado Hugo Motta o apoio recebido em 2022, ajudando a campanha de Nabor Wanderley.
A chapa da coligação MDB/PSD vai entrar perneta: um candidato grande – o senador Veneziano Vital do Rego – e outro eleitoralmente pequeno, que o suplente de deputado André Gadelha. Essa situação permite a Veneziano manter o apoio de dezenas de prefeitos que são aliados do governo e votam em Lucas para governador e João Azevedo para senador. Casar o voto com um aliado de peso, certamente, causaria prejuízos.
Além disso, Veneziano tem o apoio de grupos de respeitável força política que precisam de autonomia para escolha do segundo candidato a senador. São os casos da família Cunha Lima, do deputado Romero Rodrigues, do candidato Cícero Lucena e do prefeito de João Pessoa, Léo Bezerra. Como não lançaram um nome para compor com Veneziano e não parecem dispostos a apoiar a candidatura de André Gadelha, essas lideranças tendem a buscar um candidato de outras coligações.
No momento, parece haver um grande vácuo político à frente dessas lideranças. Mas,
como a maioria se posiciona na oposição ao ex-governador João Azevedo e não parece haver ligação com o ex-ministro Marcelo Queiroga, o vácuo pode acabar no terreiro de Nabor Wanderley, em vento intenso prenunciando possíveis benesses e oportunidades públicas soprado pelo presidente de Câmara, deputado Hugo Motta.
A perspectiva mais provável é que, no período da campanha propriamente dita, após as convenções e registros de candidaturas, a disputa para o Senado se transforme num caldeirão de misturas as mais diversas, com os principais agrupamentos da elite política estadual pulando a cerca partidária e ajustando interesses grupais e pessoais, além de interesses políticos futuros, na velha mesa da repartição do poder no Estado.
Por fora desse caldeirão, a candidatura do ex-governador João Azevedo deverá correr e tentar se manter na rede de apoios de prefeitos, com o governador Lucas Ribeiro funcionando de liga, além do próprio prestígio pessoal construído angariado nos últimos sete anos de gestão.
Assim, o que se vislumbra na disputa para o Senado é muito mais uma luta de agrupamentos políticos pelo importante espaço de poder em Brasília do que uma campanha ou um debate que ponha o Estado e a qualidade de sua representação em primeiro lugar.