Durante uma recente missão técnica na Espanha, ouvi repetidamente, em palestras, painéis e até em conversas informais com potenciais investidores e outros que já possuem empresas no Brasil, que o foco dos investimentos internacionais estava migrando de forma irreversível do Sul para o Nordeste do país.
Afinal, o que levou esses investidores sagazes a terem tanta certeza dessa guinada, a ponto de apostarem em uma região que, até pouco tempo, era esquecida e considerada um estorvo pelo restante do país? É evidente que alguns investimentos estratégicos lançaram as bases para catapultar o Nordeste como a nova porta de entrada de investimentos mundiais.
Por todo o século XX, o desenvolvimento econômico brasileiro ficou concentrado em estados do Sudeste, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Esses estados concentraram investimentos públicos e privados que redundaram na implantação de uma infraestrutura de rodovias, portos e aeroportos. Isso solidificou uma fortíssima concentração industrial em detrimento das outras regiões do país. Essa disfuncionalidade deixou o Nordeste dependente economicamente do Centro-Sul, reduziu a competitividade industrial a zero, gerando uma baixa renda que provocou um fortíssimo êxodo populacional.
A virada de chave do Nordeste começou logo no início deste século, com maciços investimentos nos portos de Pecém, no Ceará, e Suape, em Pernambuco, na Ferrovia Transnordestina e em grandes projetos de energia solar e eólica. Eis uma das saídas para o Nordeste quebrar sua histórica dependência do Sudeste, criando um novo eixo próprio de desenvolvimento econômico regional.
Essa transformação, que visa tornar o Nordeste um centro estratégico de captação de investimentos internacionais, está lastreada na ampliação e modernização dos seus portos. Eles adotam um novo conceito, os chamados “portos-indústria”. Nesse modelo, esses ativos logísticos não servem apenas para embarcar e desembarcar produtos e mercadorias, mas também para atrair indústrias, gerando cadeias produtivas em seu entorno.
Os portos de Suape e Pecém adotam esse novo conceito e, atualmente, são pilares estratégicos da economia nordestina, fortalecendo a industrialização integrada ao comércio internacional, com reais chances de competitividade. Esses portos recebem investimentos maciços em siderurgia, refinarias, petroquímica, polos industriais, centros logísticos e energias renováveis, tendo como carro-chefe o hidrogênio verde.
Hoje, esses dois portos, integrados à Transnordestina, formam um poderoso potencial logístico que possibilita a interiorização do desenvolvimento, constituindo um verdadeiro corredor econômico capaz de levar as riquezas do interior do Nordeste para o mundo.
Com uma população de 57 milhões de habitantes, a segunda maior do país, e um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 1,5 trilhão, a terceira maior economia do Brasil, atrás apenas das regiões Sul e Sudeste, essa região se destaca por sua posição estratégica próxima à Europa, à África, ao Canal do Panamá e à costa leste dos Estados Unidos, tornando-se um corredor internacional de importação e exportação que brilha aos olhos do mundo. A China já percebeu isso!
Este é o novo Nordeste, ancorado em uma educação e formação profissional sólidas. Universidades e centros tecnológicos de excelência desenvolvem polos de inovação, tecnologia e pesquisa que podem impulsionar uma arrancada histórica, rompendo os grilhões do atraso e da humilhante dependência do Centro-Sul do país.