O ano de 1971 se iniciava e aí começava mais uma etapa da minha vida de estudante, para concluir o Curso Ginasial no Colégio Estadual de Cajazeiras. Meus colegas de turma eram praticamente os mesmos do ano anterior. Como todo concluinte de curso pensa em formatura, festa e viagem de final de ano, não poderíamos esquecer que, para esses eventos, parte das despesas tinha como ajuda o uso do Livro de Ouro. Aliás, hoje em dia, não sei se os alunos formandos ainda usam esse tipo de ajuda.
Na manhã do dia 15 de março de 1971, às 9 horas, estava eu sentado debaixo do pé de baje, que ficava ao lado da casa de seu Sinval do Vale, na Praça do Espinho, apreciando o movimento do dia a dia daquela praça, o vai e vem das pessoas, das bicicletas e dos carros e, de repente, chegaram meus colegas de classe do Colégio Estadual, Dedé Cabôco e Kérson Maniçoba. Dedé me disse o seguinte: “Hoje, à noite, vai ter a posse do governador eleito da Paraíba, Ernani Sátiro. Que tal nós três irmos para João Pessoa, com o Livro de Ouro, que está aqui comigo, e tentar arrecadar fundos para a nossa formatura?”
A partir desse momento, questionei para eles sobre o tempo de chegar a João Pessoa. Pelo menos, se fosse de carro particular, até que daria tempo. Mas, já que não tínhamos carro, como poderíamos fazer essa viagem tão inesperada? Eles me falaram que sairíamos de Cajazeiras de carona. Iríamos para o Posto Fiscal, na saída de Sousa, e arriscaríamos a carona.
Fomos para o Posto Fiscal e, não demorou, chegou uma caminhonete com destino a Sousa. Falamos com o motorista e lá fomos nós. Em Sousa, fomos a algumas lojas comerciais e conseguimos uns trocados através do Livro de Ouro. A seguir, pegamos uma carona para Pombal e fizemos o mesmo procedimento. E, assim, fizemos em Patos e chegamos a Campina Grande já altas horas da noite.
Digo o seguinte: o que arrecadamos era pouco para comprar passagem de ônibus até João Pessoa. Ou seja, de carona em carona chegamos a Campina Grande.
Fomos para a rodoviária. Dedé Cabôco disse que tinha uma irmã dele que morava ali perto, mas não estava pensando em acordá-la para podermos dormir no apartamento dela. Na rodoviária, merendamos e não tinha outra saída na hora de dormir. Dormimos nos bancos da rodoviária, sem agasalhos, e, naquela época, Campina Grande era fria porque, à noite, tinha clima de cidade serrana.
No dia seguinte, fomos ao apartamento dela e ela ficou furiosa com Dedé, porque não fomos dormir lá e, além do mais, o esposo dela estava em João Pessoa resolvendo negócios. Tomamos banho, café e pegamos mais uma carona para João Pessoa.
Chegamos a João Pessoa já no dia seguinte à posse. Fomos para a Casa do Estudante, no centro, onde residiam vários estudantes de Cajazeiras e de outras cidades. Lá encontramos Pina, de Chico Bibiano (irmão de Toinho, dono de bar em Cajazeiras, e da professora Branca). Sales, meu irmão, também já morou nessa casa.
Dormimos lá, mas com uma condição: no chão, forrado de jornais.
Na volta a Cajazeiras, quando chegamos ao Colégio Estadual, foi aquele auê da galera, nos chamando de “Os Fugitivos”. Ou seja, não arrecadamos nada que beneficiasse a nossa formatura, porque o que foi arrecadado só deu para pequenas despesas de lanches, cigarros, cafezinhos e, aqui e acolá, uma cachacinha na viagem, porque ninguém trabalha de graça.