Não podemos cometer o mesmo equívoco da eleição presidencial de 1989, quando Lula perdeu para Fernando Collor de Mello. Naquele ano, o Brasil acabava de conquistar uma nova Constituição, batizada por Ulysses Guimarães de Constituição Cidadã, marco da redemocratização e da recuperação dos direitos políticos após 21 anos de ditadura.
Collor construiu sua campanha em torno do combate aos altos salários do funcionalismo público e foi promovido pela grande imprensa como o “caçador de marajás”. Sob o discurso da renovação e da moralização do país, consolidou-se uma narrativa que apresentava a disputa como uma escolha entre a esperança e o medo. Lula e outras lideranças históricas, como Leonel Brizola e Ulysses Guimarães, enfrentaram uma campanha marcada pela desqualificação das forças progressistas. Parte expressiva da imprensa contribuiu para alimentar o receio de que a vitória dessas lideranças representaria uma ameaça ao país.
Milhões de brasileiros foram convencidos a apostar em um candidato cuja trajetória não estava vinculada às mesmas lutas populares e sociais de seus adversários. Collor tornou-se símbolo de uma renovação conservadora que prometia mudanças, mas não correspondia às expectativas que ajudara a criar.
É nesse contexto que precisamos avaliar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Assim como ocorreu com Collor, a imagem de renovação conservadora não pode substituir uma análise rigorosa do preparo, da experiência e dos compromissos de quem pretende ocupar a Presidência da República. Governar o Brasil exige conhecimento dos problemas nacionais, equilíbrio, responsabilidade e capacidade de diálogo.
Lula, por sua vez, representa o campo progressista e a defesa de políticas de inclusão social. A disputa entre os dois não deve ser reduzida a uma batalha de personalidades, pois envolve projetos distintos para o futuro do país.
O risco vai além da interrupção de políticas sociais. Estão em jogo também a soberania nacional, a autonomia do Brasil diante das grandes potências e a preservação dos direitos conquistados pela população.
Caetano Veloso nos oferece uma imagem contundente das escolhas políticas ao cantar sobre estar “entre a delícia e a desgraça, entre o monstruoso e o sublime”. A política exige discernimento porque nem tudo o que se apresenta como novidade representa avanço. Às vezes, o discurso da mudança esconde a possibilidade de retrocessos profundos.
Não podemos permitir que o Brasil caia novamente na armadilha de escolher um candidato embalado pela propaganda e descobrir tarde demais o preço dessa decisão. A eleição presidencial não é uma aposta no desconhecido. É uma decisão que afeta a vida de milhões de brasileiros, o futuro das próximas gerações e o lugar do nosso país no mundo.
A memória de 1989 precisa orientar nossas escolhas. Não basta votar contra alguém: é necessário decidir conscientemente qual projeto de país queremos construir. Reeleger Lula significa, nessa perspectiva, defender as conquistas sociais, fortalecer as instituições, preservar a soberania nacional e garantir que o Brasil continue avançando na redução das desigualdades.
O Brasil não pode voltar atrás!