Não foi um furacão, o Aracati soprou no segundo turno, dando a Lula maioria acima de 4 milhões de votos. Em três semanas o Brasil viveu a mais intensa mobilização popular de nossa história, o povo nas ruas, os estudantes à frente, numa demonstração inquestionável do vigor da democracia brasileira. O Aracati espraiou-se pelo Brasil inteiro.
O mundo real não se alterou.
Mudou o olhar das pessoas. A clara percepção do iminente perigo de entregar os destinos da Nação à extrema direita trouxe o medo à superfície. Coonestar o domínio de um grupo que despreza a verdade, desdenha da pobreza, trata a soberania nacional como moeda sem valor, jamais.
O que mudou então?
Começo lembrando a confissão de Lula: “Eu tinha a certeza que ia vencer as eleições no primeiro turno”. Depois revelou: “Eu amo vocês”. Aí começou uma explosão coletiva diante do medo generalizado. Medo de perder conquistas sociais alcançadas a duras penas, da volta ao passado, o Brasil sob o comando da família, cujo chefe exaltou a figura do coronel Brilhante Ustra, num grave momento da história institucional do Brasil. Quem? Ustra, símbolo da tortura, abominável prática na ditadura. O povo brasileiro jamais iria confirmar na urna tamanha insanidade.
A mudança tem dois erres.
Ruas e redes. Para registro histórico, o primeiro grande alerta veio dos estudantes de Niterói, em passeata no dia 5 que logo se alastrou, em paralelo à formação do Exército de Lula, comandado pelo deputado federal mineiro, feito general do povo, André Janones com seu jeito de falar e de organizar.
“Pessoal, urgente! Isto aqui é um Exército, o general dá as tarefas e vocês cumprem. Certo? Não importa que você seja mestre, doutor, pós-doutor, velho ou jovem. Aqui todo mundo é soldado. Todo mundo! Nossa tarefa hoje é: cada um vai conseguir mais cinco novos soldados. Irmão, irmã, mãe, pai, amiga, a miga, vizinho… até a gente chegar a 300 mil soldados. Vou repetir.”
Aí eu me alistei.
Tenente R2 do Exército Brasileiro virei soldado aos 87 anos! Meu filho me ensinava a navegar no ambiente digital. Ele mesmo varou noites a dedilhar teclas, ajustado à mobilização, que se agigantava até alcançar mais de dez milhões de soldados!
A marcha da virada já ganhara as ruas, dando confiança às pessoas. Milhões de jovens e velhos, juntos e misturados nas grandes cidades, nos médios e pequenos núcleos urbanos no Brasil inteiro. Redes e ruas. Ruas e redes entrelaçados!
Nas ruas, o Brasil vivera algo parecido no gigantesco movimento das Diretas já, em 1984, com o frustrante desfecho da derrota da emenda Dante de Oliveira na Câmara Federal. Restou a imagem da bandeira arriada, símbolo da maior ressaca cívica do século.
Este ano foi diferente.
O eleitor confirmou nas urnas sua soberania, de modo inquestionável, como se gritasse a plenos pulmões: aqui mando eu! É assim na democracia de verdade. A virada do povo iluminou o velhinho de 81 anos! O mundo, que já lhe estendera o tapete vermelho, agora faz um L. Não apenas para ele, mas para o povo brasileiro que anuncia nova caminhada no Sul Global.
E se o vento soprar na direção Norte?
Oxente, aí o Aracati varrerá a arrogância do galego imperial.