Bomba fiscal: quem vai desarmar?

Na última semana da campanha que precede o segundo turno da eleição presidencial, ficou evidente a falta de foco dos dois presidenciáveis em debater e apresentar propostas concretas para ajustar as combalidas contas públicas do país. Um tema crucial, praticamente ignorado na campanha, que afeta diretamente a vida dos brasileiros e representa um dos maiores desafios econômicos nacionais. Afinal, as contas públicas constituem uma poderosíssima ferramenta de gestão, reunindo indicadores que revelam a capacidade do Estado de arrecadar, controlar despesas, pagar juros e administrar sua dívida.

Nada de novo entre os dois candidatos de polos ideológicos antagônicos. O candidato da direita, pouco afeito aos assuntos econômicos, parece não ter dimensão da bomba fiscal que encontrará pela frente caso vença a eleição. O outro, atual presidente da República, ao afirmar que “essa coisa de superávit primário é uma babaquice”, sinaliza uma preocupante resistência à disciplina fiscal. Ambos parecem ignorar que contas públicas desarranjadas alimentam o endividamento, encarecem o crédito e podem disseminar o mais perverso dos tributos: o imposto inflacionário, que castiga principalmente os mais pobres.

No Brasil, o quadro é dantesco. Em agosto de 2026, a dívida pública bruta atingiu R$ 11,1 trilhões (82,9% do PIB), enquanto os juros nominais acumularam impressionantes R$ 1,182 trilhão em 12 meses. O déficit nominal alcançou R$ 1,264 trilhão (9,48% do PIB), e o primário, R$ 82,1 bilhões. Tudo isso com uma estratosférica taxa Selic de 13,75% ao ano e uma carga tributária escorchante de 32,4% do PIB em 2025. É óbvio que nem todos esses desequilíbrios decorrem exclusivamente da má gestão. Existem despesas obrigatórias com pessoal, benefícios sociais e Previdência, esta última pressionada pelo envelhecimento populacional e pela desaceleração do crescimento da força de trabalho.

Mesmo diante desse cenário, assistimos, em pleno período eleitoral, ao presidente-candidato anunciar um conjunto de medidas econômicas de caráter populista e eleitoreiro, batizado de pacote de bondades. Segundo levantamento da Instituição Fiscal Independente, vinculada ao Senado, essas iniciativas mobilizam R$ 298,4 bilhões entre créditos e subsídios, benefícios sociais, renúncia de impostos e até gratuidade do transporte coletivo. Embora nem todo esse montante represente gasto direto do Tesouro, parte das medidas ainda suscita questionamentos sobre fontes de custeio e adequação orçamentária. Uma irresponsabilidade fiscal sem tamanho, que poderá comprometer ainda mais o equilíbrio fiscal, qualquer que seja o vencedor das eleições.

O grande paradoxo é que, mesmo com o crescimento real da arrecadação, as despesas públicas continuam avançando, alimentando déficits e uma dívida cada vez mais desafiadora de administrar. O Brasil arrecada muito, gasta mal e investe aquém de suas necessidades. Sem reformas estruturais, revisão de gastos e responsabilidade fiscal, continuaremos transferindo às futuras gerações o preço da incapacidade política de enfrentar problemas conhecidos há décadas.

Quem vai desarmar esta bomba fiscal? Ela continua armada, seu relógio continua correndo e ninguém parece disposto a desarmá-la. Quando explodir, a conta não será paga pelos governantes de plantão, mas por milhões de brasileiros, sobretudo os mais pobres, que já não suportam o peso de um Estado cada vez mais caro, ineficiente e perdulário.

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