Morreu Raimundo Carrero

Nunca mais vamos ouvir o vozeirão de Raimundo Carrero. Foi cantar em chão mais ameno. Nos últimos anos, sua vida transformara-se em difícil batalha. Enquanto tinha energias trabalhava usando o que aprendera na sinuosa caminhada de amores e desamores.  

Ele veio de Salgueiro, um saxofone e o sonho de ser artista. E chegou a sê-lo na promíscua agitação noturna do Recife Antigo, subindo e descendo escadas de puteiros. Depois, já na redação do Diário de Pernambuco, Carrero reencontrou aquele ambiente de miséria humana, traições, violência, o choro de gente invisível das periferias urbanas. Mais tarde, muitos ressurgem, burilados, em personagens de seus romances. Uma simples frase impressa desencadeava nele uma torrente imaginativa que nem biqueira em dia de chuva forte no sertão. O visgo sertanejo, também, impregnava sua alma, seus textos literários. Daí a sofrida escrita de Carrero.

Os títulos de seus livros chamam a atenção.

Sinfonia para vagabundos, A dupla face do baralho, Sombra severa, O senhor agora vai mudar de corpo, O amor não tem bons sentimentos, Maçã agreste, As sombrias ruínas da alma, Viagem no ventre da baleia, A minha alma é irmã de Deus, Estão matando os meninos, O delicado abismo da loucura, Pedras que se consomem, Ao redor do escorpião… uma tarântula?  

Frequentei sua Oficina de Criação Literária quando funcionava na União Brasileira de Escritores, aqui em Casa Forte, ele já famoso pelos prêmios nacionais conquistados. De tão perto, eu ia a pé e chegava cedo. Tive o privilégio de ouvir passagens de sua vida. E de conhecer Marilena, seu “anjo da guarda”, ele falava, ponto de equilíbrio no desleixo visionário. Nos conhecíamos desde o governo de Miguel Arraes, ele à frente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco e eu em outras áreas.

Um dia chego no casarão da UBE, Carrero está sozinho no terraço com um recorte de jornal nas mãos. Mais agitado do que o normal. Veja, Cartaxo, ele mesmo passou a ler o comentário de Marcelino Freire (acho que era da Folha de São Paulo) acerca do romance “Ao redor do escorpião… uma tarântula? Orquestração para dançar e ouvir”. Lia e comentava.

Eu escutava quieto.

Marcelino é amigo de Carrero. Frequentara sua Oficina. Mudou-se para São Paulo, onde já se ambientara. A crítica que fizera ao romance, então, mais recente de Carrero primava pela elegância nos termos e nas observações. Uma frase, porém, tocara a alma do mestre: prefiro o Carrero da História de Bernarda Soledade – a tigre do sertão. Ora, este foi o romance de estreia de Carrero. Escrito em cinco dias em Salgueiro, costumava repetir. Sem a sofisticação estilística ou o experimentalismo caprichoso que Carrero quis imprimir à tarântula ao redor do escorpião, usando a técnica de repetição exaustiva. Daqui a cem anos, vão ler este livro inovador, sonhava Carrero, sob o influxo do encanto de sua própria arte. Às vezes, as “sombras severas” viram “pedras que se consomem” sem viajar “no ventre da baleia”.

Viva em paz, amigo Carrero.

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