Na eleição de 2018 ecoou um grito em saguão de aeroporto, aglomerações de rua e até em shopping center. De repente, as pessoas começavam a berrar: mito, mito, mito! E repetiam de maneira ensandecida.
Muito estranho aquilo na história política brasileira. Mito, mito, mito. Isso bastava. Ninguém precisava raciocinar. Alguns observadores atentos, chegamos a dar pouca atenção, pensando que a racionalidade se sobrepunha à opção de votar num mito fabricado. Por essa época, uma voz abafada entrou no meu ouvido pelo telefone:
– Cartaxo, o que é que tá acontecendo? Por onde ando aqui em João Pessoa só encontro gente que vai votar em Bolsonaro, me explique, que diabo é isso!
Gonzaga Rodrigues repartia comigo a angústia de muitos. Sem que eu tivesse me dado conta, tentei demonstrar por A mais B que o capitão não venceria. Naquele longo papo, ele estava preocupado com o clima a seu redor. E com razão.
Hoje, oito anos depois, recordo muito bem um dos motivos de seu temor. E do que lhe disse: Negão, você está cercado de médicos, e os médicos detestam o PT.
“Não, não, não é só a classe médica… tem muito mais gente, Cartaxo”.
A profética revelação confirmou-se. Jair obteve em João Pessoa 55% dos votos contra 45% de Haddad. O mito venceu! Só mais tarde compreendemos as causas daquela explosão de aparente irracionalidade. Estava em gestação, tornando-se visível em 2013 quando a massa raivosa ocupou as ruas de São Paulo, contra o aumento no preço das passagens dos transportes coletivos. E de máscaras pretas grupos organizados vandalizaram. Mas seria inimaginável que, três anos após, desembocassem no grito mito, mito, mito.
Hoje o mito sumiu.
Governou quatro anos para a família e os amigos. Desdenhou da morte na pandemia. Passeou de Jet Sky, mentiu sem cerimônia no Nordeste: “eu vim trazer água para matar a sede de vocês”. Nesse dia eu estava em Cajazeiras, na rua me abordavam: ouviu, doutor, eita caba mentiroso da peste! E ríamos à solta!
Ao pressentir a derrota em 2022, o mito fingiu-se morto, enquanto preparavam o golpe de 8 de janeiro. Depois, já na prisão viu seu mundo ruir e, pior ainda, viu que lá fora estendiam o tapete vermelho para o filho do Nordeste. Quem colocou? O poderoso branquelo do boné azul para receber o filho de dona Lindu! O mesmo boné azul que vemos, agora, na cabeça de Flávio, Tarcísio, sei lá mais de quem, na Avenida Paulista. Eis a soberania do boné azul!
E o mito?
Enredou-se nas próprias trapaças. O berro recolheu-se aos pastos. Afeito ao ócio, o herdeiro, nos parlamentos desde os vinte e um anos de idade, não teve a chance sequer de bater um prego numa barra de sabão… A sombra do pai lhe deu água fresca e impunidade para as espertezas, protegido por milícias, em troca de empregos, galhardias a matadores de aluguel. Agora, no Guia Eleitoral, Flávio tenta inventar um esdruxulo conceito de soberania. “Eu vou devolver a soberania ao povo brasileiro”, referindo aos territórios sob controle do crime organizado, que o alimenta de votos no Rio. Tal pai, tal filho.
Cadê o papel do Nordeste?
Hoje não deu. Volto na próxima semana.