Escutar rádio é um hábito que conservo desde a adolescência. Bem me lembro do primeiro aparelho comprado por meu pai em Cajazeiras. Rádio de válvulas. Só funcionava ao anoitecer quando ligavam o motor da luz. Quando acendia a tocha amarelada no poste, eu corria para ouvir A Voz dos Municípios, programa da Rádio Borborema, de Campina Grande, uma das poucas emissoras paraibanas naquele começo da década de 1950, na época, conduzido pelo radialista cajazeirense Gil Gonçalves, se a memória não embaralha.
O rádio lá de casa era um pequeno móvel colocado na sala de jantar. Quando meu pai entrou com ele foi um alvoroço! Compara na loja de Murilo Bandeira, Casa Rio do Peixe, que funcionava no prédio da esquina da rua Padre José Thomaz com a Tenente Sabino. No primeiro andar funcionava a Difusora Rio do Peixe (DRP), em frente à concorrente Difusora Rádio Cajazeiras (DRC), da firma Carvalho & Dutra Ltda. (Tenho comigo a Nota Fiscal emitida em 1953). As duas, DRC e DRT, disputavam audiência, com enorme vantagem para a DRC, que tinha “bocas de som” instaladas em pontos estratégicos da cidade. Por isso, os locutores bradavam com orgulho:
– Difusora Rádio Cajazeiras falando para os quatro cantos da cidade.
Fui um deles. Aluno do Ginásio Salesiano Padre Rolim, repetia aquele bordão ao microfone. Meu amigo José Adegildes Bastos me deu corda, “Você tem jeito pra locutor”. Fui treinar e fiquei meses. Depois de alguma prática, ele me deixava sozinho, à noite, e sumia para travessuras amorosas por cantos escuros de Cajazeiras…
Mas voltemos ao rádio receptor.
O primeiro que vi e escutei foi o do casarão do major Galdino Pires, esposo de tia Cartuxinha, levado por meu pai. Íamos à noite, ele querendo conversar com sua única irmã e, também, saber o que se passava no mundo. O major, homem de poucas palavras, só ligava o aparelho, gigante a meus olhos de criança, na hora em que, após as doze badaladas do Big Ben, a voz empostada do locutor comunicava:
– Estação de Londres da BBC. Meia noite em Londres, 20 horas, hora do Rio de Janeiro.
Logo em seguida vinha o desfile das notícias do dia. Ouvíamos em completo silêncio. Terminado o noticiário, o major desligava o rádio e quase nada comentava. Poucos minutos depois, voltava ao botão para sintonizar a Rádio Jornal do Comércio, do Recife, e ouvir o Repórter Esso, “testemunha ocular da história”. No final vinha o suspense em voz quase gritada: “E atenção para a última notícia!”.
Certa noite, de volta para nossa casa, na calçada mal iluminada, segurando a mão do filho caçula, meu pai me disse:
– Galdino só escuta a BBC de Londres para saber o preço do algodão na Bolsa de Liverpool. O resto não lhe importa.
Galdino era dono fazendas de gado e algodão, e de usina de pluma, óleo e sabão. Muitos anos à frente eu compreendi o verdadeiro significado daquela observação de meu pai, presa na memória até hoje. E percebi a sua real intenção: desenhar o perfil do marido de minha tia.
E o rádio de sua casa, Frassales, servia pra quê?
Na próxima semana você saberá.