Desde 2019, com a posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República, tornou-se perceptível a aproximação de seu governo com setores conservadores e grupos favoráveis à restauração da monarquia no Brasil. A relação do ex-presidente com integrantes da Família Imperial Brasileira, como Dom Bertrand de Orléans e Bragança, simbolizou um alinhamento em torno de pautas sintetizadas pelo lema “Deus, pátria e família”.
Inspirado por esse imaginário, o governo passou a ser frequentemente associado à forte influência exercida pelo núcleo familiar do presidente sobre decisões políticas, estratégias de comunicação e articulações institucionais. Em determinado momento, Fernando Henrique Cardoso comparou esse fenômeno ao surgimento de uma espécie de “família imperial de origem plebeia”. Segundo ele: “Nós estamos assistindo ao renascimento de uma família imperial de origem plebeia. É curioso isso. Geralmente, na República, as famílias não têm esse peso. Quando têm, é complicado, porque a instituição política não é a instituição familiar; são coisas diferentes.”
O historiador Peter Burke observa que as monarquias desenvolveram sofisticadas estratégias de construção da imagem pública do soberano, sendo pioneiras naquilo que hoje se convencionou chamar de marketing político. Nesse aspecto, podem ser estabelecidos paralelos entre a construção da imagem pessoal de Bolsonaro e práticas históricas de personalização do poder. Há, contudo, uma diferença importante. Enquanto monarcas como Dom João VI, Dom Pedro I e Dom Pedro II buscaram, em diferentes medidas, associar seus governos ao incentivo às artes, à cultura e ao conhecimento, Bolsonaro foi frequentemente acusado de desvalorizar a produção científica, a educação e a cultura. Sua liderança apoiou-se mais na mobilização emocional, na polarização política e na construção de uma identidade fortemente personalista.
Também merece destaque o uso recorrente de símbolos nacionais, como a bandeira, as cores verde e amarela e o próprio conceito de patriotismo, incorporados à comunicação política do bolsonarismo. Essa apropriação transformou símbolos que pertencem a toda a sociedade em marcas de identificação de um único grupo político, fortalecendo o sentimento de pertencimento entre apoiadores e intensificando a hostilidade contra adversários.
Sob essa interpretação, o bolsonarismo teria incorporado elementos característicos de tradições monárquicas, especialmente a centralidade da família como núcleo de poder e a ideia de continuidade política por meio da sucessão familiar. Diferentemente das monarquias constitucionais contemporâneas, nas quais o monarca exerce funções predominantemente simbólicas, essa lógica estaria associada à preservação da influência política efetiva. Nessa perspectiva, ao apoiar politicamente um de seus filhos como sucessor, Jair Bolsonaro reforça um projeto centrado na continuidade de seu grupo familiar, mais do que na construção de um projeto nacional de longo prazo.