Segundo turno é outra eleição?

Dizem que o segundo turno é outra eleição. A Paraíba viveu situações em que o vencedor no primeiro virou perdedor no segundo. A campanha presidencial deste ano revela peculiaridades jamais vistas nas últimas disputas presidenciais. Escondeu Flávio e mostra singularidades que podem ajudar a entender a dinâmica do voto no segundo escrutínio do dia 25.

Antes, vejamos números do primeiro turno.

Votaram 125. 3 milhões, sendo 119.3 milhões de votos válidos, dos quais 3. 7 milhões foram nulos e 2.3 milhões brancos. Não compareceram às urnas, 33. 5 milhões de eleitores. Do total de votos válidos, Flávio obteve 56.1 milhões (47%), Lula 53.9 (45%). Os outros sete candidatos somaram 9.3 milhões (8%).

A campanha eleitoral foi estranha.

A eleitor votou num candidato que não conhece. O pai dá água e sombra ao filho. Muito jovem, tornou-se parlamentar. Sua única experiência. O sobrenome Bolsonaro é pouco, muito pouco, para comandar a nação mais importante da América Latina. 

E o outro? Trajetória conhecida. A vida revirada. Julgado, condenado e preso por um juiz, que tinha um projeto político que o levou a ser ministro, senador e, agora, governador. Deu certo, embora nada tenha provado!   

O uso abusivo de redes sociais é a grande novidade.

A maior parte dos eleitores recebe informações por meio digital, um mundo à parte, uma verdadeira “bolha”, formada por “influenciadores”. Nesta eleição o dinheiro público alimentou, fortemente, esse ambiente digital. Está na prestação de contas (primeiro turno) da campanha de Flávio: gastos com “impulsionamentos de conteúdo na internet” 9 milhões. Na de Lula, menos de 3 milhões. Fica difícil desmanchar mentiras espalhadas!

Terceira singularidade da disputa foi a ausência de temas de real interesse para as pessoas comuns. Eles deveriam figurar na pauta de qualquer postulante, como indicativo do seu projeto de governo: desenvolvimento econômico, segurança pública e formas eficazes de combate ao crime, hoje organizado em milícias e grupos que controlam territórios em grandes e médios centros urbanos. E infiltrados nos poderes da República.

Que propostas foram apresentadas?

Lula enfatiza a estratégia de asfixia financeira dos grupos, incluindo as entidades responsáveis pela lavagem de dinheiro. Para tanto, dá liberdade de ação à PF e demais órgãos investigativos. Flávio se limita a prometer equiparar o crime organizado ao terrorismo, redução da maioridade criminal, a construção de penitenciárias gigantes, copiando o modelo proposto por Donald Trump. Não diz como fazer, mas promete usar a tesoura para cortar gastos. Na educação? Na saúde? Nos programas sociais? 

Nada disso foi debatido, apenas enunciado.   

Os dois candidatos competitivos não participaram de debates. Quem sabe, agora possam ser discutidos assuntos relevantes. Mudanças climáticas, meio ambiente em geral, desenvolvimento regional, garantia das conquistas sociais, como redistribuição de renda, ações efetivas no campo da saúde pública, da educação e sua interiorização, realização de investimentos maciços na infraestrutura ferroviária, em ciência e tecnologia. Nestes casos, associados à defesa da soberania nacional de modo a proteger nossas riquezas minerais, a permanente melhoria da produtividade, via pesquisas da Embrapa, e da agricultura familiar.

Se tais assuntos vierem à baila, e gente vai saber quem é Flávio Bolsonaro de verdade, aí sim, o segundo turno será outra eleição.

Total
0
Shares
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Posts