Sexta-feira foi a vez do candidato da extrema direita enfrentar a sabatina da Rede Globo. Ou, pelo menos, era essa a expectativa. Porque o que se viu esteve mais para um comício eletrônico destinado ao seu próprio rebanho do que para uma entrevista capaz de apresentar ao eleitorado as ideias e propostas de quem pretende governar o país.
O candidato entrou decidido a falar para a bolha. E falou. Com a segurança de quem sabe que, para os fanáticos, pouco importa o que os fatos dizem. O que importa é aquilo que confirma suas crenças e alimenta o velho e conveniente ódio a Lula e ao PT.
Foi um verdadeiro festival de afirmações desmentidas pela realidade, apresentado com uma desfaçatez impressionante. E, para o seu público cativo, cada afirmação parecia merecer aplausos. A capacidade de acreditar sem questionar parece ser uma das principais exigências para ingressar nesse peculiar clube de admiradores.
O problema é que uma eleição não se ganha apenas com o voto dos convertidos. Há milhões de brasileiros que não pertencem a nenhuma bolha ideológica e que ainda não decidiram em quem depositarão seu voto no dia 4 de outubro. E esses eleitores provavelmente esperavam ouvir propostas, conhecer soluções e saber como o candidato pretende governar o país. Não ouviram.
Perguntas ficaram sem respostas. Propostas de governo praticamente não apareceram. Em compensação, sobrou o repertório de sempre: “E o Lula?”, “E o PT?”. É a velha estratégia de quem, diante de uma pergunta difícil sobre o próprio candidato, prefere falar do adversário.
O desempenho também revelou um conhecido negacionismo ambiental. Em vez de apresentar uma política consistente para enfrentar os problemas ambientais do país, preferiu repetir argumentos que agradam à sua militância. Mais uma vez, a realidade teve de ceder espaço à narrativa.
E houve ainda a emblemática “colinha na mão”, que talvez seja a melhor síntese do seu desempenho. Não apenas uma dificuldade momentânea de expressão, mas a demonstração de que enfrentar uma sabatina exige algo que não se improvisa: preparo, conhecimento e respostas para além dos slogans produzidos para as redes sociais.
No fim das contas, o candidato conseguiu cumprir sua missão. Não convenceu necessariamente o eleitor indeciso, não apresentou um programa capaz de entusiasmar quem procura alternativas e deixou muitas perguntas sem resposta. Mas agradou ao rebanho.
E talvez seja justamente esse o problema: quando um candidato se acostuma a falar apenas para quem já acredita nele, deixa de disputar uma eleição e passa a pregar para os convertidos. O aplauso da bolha pode ser ensurdecedor. Mas eleição se ganha fora dela.