A poucos dias da eleição, sinto uma falta enorme de Tantino, o poeta que morava na pracinha construída ao lado o canal do Açude Grande, em Cajazeiras. Meu irmão tinha o hábito de sentar-se nos bancos de madeira do tempo do prefeito Zerinho Rodrigues, à sombra das cajazeiras por ele mesmo plantadas. Amigos de todas os andares sociais, indo de carro, moto, bicicleta ou a pé, paravam para um dedo de prosa. Assim, Tantino sabia tudo que se passava na cidade. Bom, também havia as conversas de bares…
Ele ouvia tudo e muito queria saber.
Em época de eleição, sondava a situação em distritos, sítios e bairros, comparava dados, avaliando as tendências do eleitorado. Era mais eficiente nas previsões do que os “ibopes” da vida.
Muito aprendi com meu irmão.
Eu viajava a Cajazeiras com frequência. Presenciei cenas típicas dos escritos de Helder Moura. Um caso, que não testemunhei, merece ser relembrado. Candidato do PT a prefeito, o advogado Moreira Lustosa puxou uma cadeira na calçada da casa de Tantino e, cheio de entusiasmo, relatou suas andanças, o apoio espontâneo, a receptividade a seu nome, o desejo de mudança. Falava encarrilhando uma visita em outra, nas casas dos amigos, em ruas e sítios, nas lojas do centro, em escolas.
Uffa, fez uma pausa, Tantino sentenciou:
– Moreira, eu voto em você, mas você não vai ter nem 2.000 votos!
No entusiasmo de candidato naquele longínquo ano de 2000, Moreira só se deu conta daquela rude previsão no fim da apuração: 825 votos! Muito distante da votação do médico Vituriano de Abreu (10.707 votos) e de outro médico, Carlos Antônio (15.134 votos), eleito à sombra da popularidade de Epitácio Rolim, também médico.
Mesmo sem conhecer essa história, o empresário João Claudino, que nunca foi candidato, sempre procurava Tantino, nas proximidades das eleições. Eles foram colegas no Ginásio Salesiano Padre Rolim. Mais tarde, dono de conglomerado de empresas no Maranhão e Piauí, vinha falar com Tantino. Cochichavam a sós um tempão. À distância, presenciei uma vez. Falavam o quê, Tantino? Negócio de eleição na Paraíba, era a lacônica resposta. João investia em candidatos amigos, desde que tivessem chance de ganhar. Não era de jogar dinheiro fora!
Cadê o caçador, Frassales?
Ouvi de Tantino a história do caçador de avoantes. Escondido atrás de uma moita, a espingarda soca-soca carregada de chumbo, ele ficava à espera que o bando esvoaçante fosse beber água. Sem presa, como todo bom caçador, à aproximação das aves calibrava a mira. De repente, um tiro e um rebanho de pássaros caia no chão! A meninada em alvoroço corria para a beira do açude catar os bichinhos. No final, os gritos:
– 99, 99, 99 avoante!
– Tantino, por que você não arredonda pra 100?
– Eu vou mentir por causa de uma arribaçã!
Tantino, mano velho, que saudade! Se você estivesse vivo, a gente ia ver de noite o Guia Eleitoral. Seu comentário seria:
– Esse Flávio mente mais do que caçador de arribaçã!
No dia seguinte, após catar milho na tecla do computador, você mandaria deixar na TV Diário do Sertão, na Rádio Alto Piranhas e no Coisas de Cajazeiras o soneto: Candidato mentiroso!