O El Niño e os velhos problemas de secas no Nordeste

Não existem muitas dúvidas. Todos os levantamentos da ciência preveem a formação de novo El Niño neste ano de 2026, extendendo-se a 2027. A única dúvida é sobre a intensidade do fenômeno, que se instala com o aquecimento do Pacífico Equatorial e altera a circulação dos ventos e das correntes marítimas, modificando os padrões de chuvas e de temperatura em todo planeta. Altera muito em todos recantos de forma inevitável.

O novo El Niño, em que pese a prudência das análises climáticas, está chegando ao Brasil com perspectiva concreta de elevada intensidade. Significa que, para o Nordeste e o Norte, as previsões são de secas severas.

Aqui começam os problemas, especialmente no semiárido nordestino, a região a ser, com certeza, mais atingida pelo fenômeno, como já aconteceu diversas outras vezes na história.

A primeira e relevante questão posta diz respeito à gestão não apenas relativas ao clima, mas de proteção ambiental e das pessoas. Indaga-se: há algum movimento de planejamento para enfrentamento do sério problema que se avizinha? Existem iniciativas concretas para se mitigar os efeitos do El Niño?

A resposta é não, embora alguns efeitos são evidentes demais para serem desprezados. Se as previsões são de seca severa, não existe como desconhecer que, sem chuvas, não haverá, reposição dos reservatórios de abastecimento d’água na região. O abastecimento será atingido. Não seria, então, o o caso de já se iniciar um processo de uso racional das águas a partir de agora para não haver colapso em 2027? Não seria o caso de também de se planejar de forma mais cautelosa a liberação de água dos grandes mananciais para projetos de irrigação de forma a não comprometer a produção no próximo ano e, ainda assim, manter a segurança do abastecimento?

Não se conhece, como não houve no passado, nenhuma iniciativa dos órgãos de gestão hídrica na região para estabelecer planos de convivência com o El Niño.

A situação exigiria, por exemplo, um plano mais ousado de perfuração de poços, construção de cisternas ou adoção de outras formas de reservas ou administração de reservas de água. Contudo, também não se tem notícias de qualquer medida nova para convivência com a seca na região do semiárido.

As preocupações sobre reservas hídricas e abastecimento podem se ampliar, necessariamente, aos campos da criação de animais e alternativas de produção e geração de renda. Porém, não existe o mínimo sinal de atenção de governantes neste campo. Nem se ouve qualquer voz da política.

O que se verifica, eternamente, é uma solene acomodação diante da realidade. Parece haver uma crença de que os programas sociais do governo e medidas emergenciais a cada evento de são suficientes para enfrentar os efeitos de qualquer El Niño. Uma estupidez pública. Fóruns permanentes de discussão e planejamento já poderiam ter apontado soluções definitivas para esse velho problema da região, que volta como sem falta e quase sempre só encontra paliativos. A velha frente de emergência ganha formas modernas, mas não deixa de ser apêndice das plataformas de jovens e modernos coronéis políticos.

Não é nada absurdo enxergar velhas práticas nas ações governamentais no Nordeste nos dias de hoje relacionadas aos períodos de seca ou estiagem. Números do Ministério da Integração revelam que, entre 2013 e 2025, os municípios da Paraíba emitiram 4.624 decretos de calamidade pública, um surrado e viciado instrumento dos prefeitos para facilitar o recebimento de verbas emergenciais e afrouxar licitações. Considerando que a Paraíba conta cerca de 150 municípios no mapa do semiárido, cada município paraibano emitiu quase 3 decretos de calamidade por ano. Não tem como não enxergar sinais de uma pequena indústria da calamidade nesses dados.

Pelo visto, ainda falta bastante para o Nordeste mudar de verdade essa velha história de descaso e vícios nos constantes períodos de estiagem ou seca.

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