Os efeitos das urnas na política da Paraíba

Cada eleição geral molda não apenas a gestão no território de sua abrangência como produz efeitos políticos mais amplos, que, na maioria das vezes, define o jogo de poder futuro. Os resultados das urnas na Paraíba e decisões de alguns de seus líderes parecem ter produzido situações que vão remodelar a correlação de forças para os próximos anos no Estado.

Não há, por exemplo, quem não tenha enxergado que o desempenho do governador Lucas Ribeiro no pleito, desde a campanha até a apuração dos votos, com vitória em primeiro turno e mais de 677 mil de maioria sobre os dois outros principais candidatos (Efraim Filho e Cícero Lucena), o credencia ao comando da principal força política estadual, uma aliança com partidos que vão da esquerda à direita. Trata-se de uma aliança que não mostra perspectiva de trincadura e dificilmente será dissolvida. E, não se tenha dúvidas, é Lucas que vai estar no comando.

E o que o torna líder do projeto?

A postura e desempenho no segundo turno das eleições presidenciais revelaram seu senso de oportunidade, sagacidade e capacidade de liderança.

Senso de oportunidade? Como assim?

Sendo de um partido do centrão político e de uma família conservadora, Lucas Ribeiro poderia ter se acomodado no segundo turno. Mas não, se jogou na campanha do presidente Lula e fez questão de assumir a coordenação, iniciativas de mobilização e pôs a cara das redes sociais.

Como justificativa para sua ação, Lucas usou o discurso da coerência e da parceria com Lula em obras fundamentais para o Estado. Justificava, porém, há mais. Ao se jogar na campanha de Lula, Lucas ocupou um espaço que poderia muito bem ser ocupado pelo deputado eleito Ricardo Coutinho ou pelo senador Veneziano Vital do Rego. A atitude do governador deixou os dois à distância e quase sem função na campanha de Lula.

A postura de Lucas também o aproxima das forças progressistas na Paraíba, o que já tinha ocorrido na campanha estadual, arejando-o política e ideologicamente. A vitória de Lula o  acomoda, sem qualquer aresta, nas frentes progressistas, sem se falar nos proveitos que a Paraíba pode obter.

De soldado tímido e currículo em início de formação, em apenas alguns meses, o governador Lucas Ribeiro se transformou em comandante político de projeção.

Mas não foi apenas o governador Lucas Ribeiro que usou do senso de oportunidade para se firmar no novo cenário político. O deputado Hugo Motta começou a construir sua reeleição à presidência na Câmara dos Deputados ainda nos últimos meses de 2025.

Depois de um zig zag de posições dúbias na Mesa da Câmara, Hugo colou em Lula e conseguiu aprovar, até a poucas semanas antes das eleições, projetos que ajudaram na reeleição de Lula. O objetivo era único: garantir o apoio da bancada do PT à reeleição, o que garantiria sua vitória em aliança com o centrão. É o que acaba de acontecer em Brasília.

O senador eleito João Azevedo é outro que tem senso de oportunidade política. Além da gestão, ganhou com a aposta em Lucas sem titubear e manteve indubitável coerência na posição  de aliado de Lula. Consolidou-se como liderança política.

Na outra mão, o senador Efraim Filho revelou também certo senso ao se filiar ao bolsonarismo ainda em julho de 2025, abandonando as incertezas da oposição. No entanto, o baixo desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro na Paraíba o empurrou para baixo.

Apesar disso, ele sai da eleição como a primeira força da oposição.

As campanhas eleitorais revelam também aqueles que perdem totalmente o faro político. Foram os casos do ex-pré prefeito Cícero Lucena e do grupo Cunha Lima. Ambos perderam feio em suas bases – João Pessoa e Campina Grande – e do limbo do voto onde ficaram talvez só consigam enxergar o banco de reservas na mesa do poder ou, mais grave, a sombria vereda do ostracismo.

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