A dialética que continua a agir

Meus caros leitores, meus heróis. Existe uma das teorias pré-socráticas, algumas delas que foram inicialmente meras especulações, numa época em que não poderia haver, naqueles tempos, algo que pudesse, ao menos, fornecer instrumentos para atestar materialmente alguma dessas teorias. Pois a ideia de que todos os seres são compostos por pequenas células foi somente comprovada depois da invenção do microscópio. Um desses filósofos pré-socráticos mais interessantes foi Heráclito de Éfeso, de quem temos a primeira concepção da “dialética”, que contém sua famosa frase: “Um homem não se banha duas vezes no mesmo rio: na segunda vez, tanto o homem quanto o rio mudaram”. Ele via a realidade em constante mudança e transformação. Sócrates e Platão expandiram esse método, assim como Aristóteles, na Grécia Antiga. A essa mudança constante se deu o nome de “dialética”, que vem do termo diálogo, de uma mensagem que vai e vem e da evolução das ideias etc.

Essas “evoluções de ideias” foram aperfeiçoadas bem mais adiante pelos pensadores árabes e, posteriormente, na Europa, pelos escolásticos de São Tomás de Aquino, que sempre acreditaram em um aperfeiçoamento das ideias, o que, nesse caso, resultou no Renascimento na Europa. Posteriormente, esse modo de pensar veio a ser desenvolvido por certos filósofos alemães, como Hegel e, um pouco depois, por Marx e Engels: escravismo, feudalismo, capitalismo e as tentativas nem tanto exitosas de comunismo.

Mas a dialética, ou seja, a evolução das ideias e dos modos de pensar através do confronto de uma tese e uma antítese, que, no final, se mesclarão em uma síntese, será sucessivamente submetida a outro processo semelhante, sendo cada vez mais aperfeiçoada e, entre marchas e contramarchas, irá evoluindo através dos tempos, sucessivamente. Isso estou apresentando apenas no campo das ideias, mas essa evolução no campo do pensamento tem origens ancestrais, desde que uma mulher escolheu os melhores grãos para semeá-los e assim surgiu a agricultura, e desde que, na Mesopotâmia, se inventou a roda, além de algumas outras invenções que nem notamos no dia a dia. Elas estão em quase todos os lugares.

A isso nós podemos chamar de avanço tecnológico, e todos eles nasceram de uma ideia, que foi aperfeiçoada através da dialética ou da intercomunicação. Alguém, lá no passado longínquo, quando viu o resultado de uma colheita ou a praticidade de se transportar cargas com o auxílio de uma roda, transferiu esse conhecimento para outras pessoas, e esses conhecimentos “fluíram”. O mesmo se deu com o papel e a pólvora, que, da longínqua China, chegaram aos prelos ocidentais. Com a produção de livros em escala industrial, as interações culturais, tanto na Europa quanto em quase todo o mundo, foram possíveis.

Mas esse processo, assim como um rio, por exemplo, não é contínuo: tem suas sinuosidades e até bloqueios e, em certos casos, retrocessos. No Brasil Colônia, por exemplo, os livros não só eram proibidos de serem impressos aqui, como, em determinados casos, tê-los em seu poder era motivo de confisco ou prisão. Isso foi um dos motivos que mantiveram nossa América Portuguesa, que, na realidade, não era só portuguesa, mas ameríndia, afrodescendente e com traços semíticos e outros disseminados em nosso DNA, por tanto tempo sob uma barreira que manteve nossa nação na obscuridade. Tentou-se obstaculizar a fluidez do saber e de nosso progresso.

Somente no final do século XX é que se conseguiu educar a população e deixar “fluir” o conhecimento… Já fui por demais “dialético”. Espero que tenham entendido.

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