A morte de meu pai

Agosto de 1975, dia 29, sexta-feira. Há 51 anos, eu estava em Paulo Afonso, acompanhando o vice-governador da Paraíba, Dorgival Terceiro Neto, para participar da reunião mensal do Conselho Deliberativo da Sudene, que, vez por outra, se reunia fora do Recife. Governadores, representantes de Ministérios e outros órgãos tinham nele uma tribuna para mostrar suas ações, debater problemas regionais, analisar, e deliberar sobre matérias relevantes para o desenvolvimento do Nordeste. Ali se tomavam decisões políticas baseadas em pareceres técnicos, preparados pela Secretária Executiva. Esse arranjo federativo-institucional foi grande sacada de Celso Furtado ao estruturar a Sudene em 1959.

Ivan Bichara Sobreira não pode comparecer e pediu a Dorgival para representá-lo, como era praxe levou o secretário de Planejamento e Coordenação Geral. A reunião acontecia no auditório do imponente hotel construído pela Chesf. Por volta de meio dia, eu saí para ir ao sanitário. Só estava um atendente na recepção do hotel. Silêncio total. Ao passar ao lado do balcão, o telefone preto soou. Senti estranha vibração interior. Parei, imaginando que o telefonema seria o aviso da morte de meu pai. Ansioso, fixo o olhar no rapaz do balcão. Ele nem sequer me olhou.

Por que o sobrosso?

Ainda hoje me pergunto de onde veio tão estranho pressentimento.

Nada comentei com Dorgival nem mesmo quando voávamos no velho avião do governo. Ao pousarmos em João Pessoa, o sol declinava na lonjura do mundo. Um tenente que servia no Palácio da Redenção, aproxima-se de Dorgival, faz a continência de praxe, a mão espalmada no quepe e, de imediato, volta-se para mim.

– Já sei tenente, você vem me comunicar que meu pai morreu.

Espantou-se.

– O senhor já sabia?

– Desconfiava.

Ele então recitou os votos de pesar enviados pelo governador e aduziu, dr. Ivan mandou colocar a aeronave à disposição para o senhor e sua família viajarem a Cajazeiras. Dispensei a gentileza. Pedi ao tenente que transmitisse ao governador minha dupla gratidão, mas iria por terra.

A cena aconteceu em frente ao hangar do estado, no Aeroporto Castro Pinto, sob o espanto de Dorgival e do coronel Júnior, chefe da Casa Militar que também viajara.

– Cartaxo, você sabia?

Narrei meu pressentimento. Seria um aviso do velho, Dorgival?

O motorista Reginaldo nos levou noite adentro pela BR 230 até Cajazeiras. Encontrei a família e a cidade consternadas. O velho poeta se fora, sem perder a lucidez, com 88 anos comemorados no dia 7 de agosto. É verdade que enxergava só por um olho, desde que recusou fazer a segunda cirurgia de catarata, na época, um terrível sofrimento.

– Precisa não. Com um olho só, vou até o fim da vida.

O mal de Parkinson o fazia dar tapa com a mão esquerda na mão rebelde. Para preservar a memória, o eterno professor de Francês escrevia no quadro negro, frases, versos, que repetia, andando no terraço. Mon âme a son secret, ma vie a son mystère, primeiro verso do soneto de Félix D’Arvers. De tanto ouvir, gravei na memória.             

Permaneça em paz, meu velho, junto de dona Belinha.

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