A grande surpresa das pesquisas divulgadas hoje é a ascensão do escritor Augusto Cury à terceira posição na disputa pela Presidência da República. Ficou evidente que parte dos eleitores indecisos enxergou nele uma alternativa capaz de fugir dos polos ideológicos que têm marcado o cenário político nacional nos últimos anos.
Essa novidade, se confirmada nas próximas pesquisas, poderá representar o risco de que a eleição não seja decidida no primeiro turno. Os levantamentos indicam que uma parcela significativa daqueles que ainda se declaravam indecisos, sinalizaram para uma definição em torno do seu nome.
A pergunta que se impõe, portanto, é se essa performance eleitoral continuará crescendo até 4 de outubro ou se estamos apenas diante de uma empolgação inicial, provocada pela busca de um terceiro nome que apareça como alternativa aos candidatos já conhecidos. Cury é bastante conhecido por seus livros de autoajuda, mas não possui experiência nas lutas políticas nem no exercício da gestão pública.
Temos pela frente pouco mais de um mês de campanha. Na sabatina de que participou na Rede Globo, ficou perceptível, a meu ver, a ausência de uma compreensão mais clara da dimensão e da complexidade do cargo ao qual está concorrendo. Apresentou propostas mirabolantes, muitas delas sem demonstrar qualquer preocupação concreta com sua viabilidade. Revelou desconhecimento sobre a estrutura administrativa do país e sobre problemas fundamentais da conjuntura política, econômica e social brasileira.
Na verdade, até aqui, Augusto Cury tem se mostrado muito mais um “vendedor de sonhos” do que alguém capaz de apresentar um projeto de governo consistente.
Produzir sonhos, explorando, ainda que involuntariamente, as fragilidades e expectativas emocionais de seus leitores, é uma coisa. Governar uma nação com mais de 200 milhões de habitantes, enfrentar uma máquina administrativa gigantesca e tomar decisões diante de problemas complexos é outra completamente diferente. Mais difícil ainda é explicar como serão efetivamente cumpridas as promessas de campanha, muitas delas apresentadas de maneira improvisada e sem a necessária demonstração de viabilidade.
Falta a Cury, até aqui, o domínio desse jogo intrincado que é a política. Um jogo que exige conhecimento, experiência, capacidade de negociação e habilidade para enfrentar a reação de adversários que atuam há décadas nesse verdadeiro campo de batalha.
Ele é, portanto, um neófito na política. E isso certamente poderá representar uma dificuldade para que consiga sustentar, até o dia da eleição, a viabilidade eleitoral que as pesquisas começam a apontar.
Seria, entretanto, um erro ignorar a força desse fenômeno. A história política brasileira já demonstrou, em diferentes momentos, que parcelas expressivas do eleitorado podem apostar no desconhecido, movidas pela esperança de renovação e pela rejeição às alternativas tradicionais. Em determinadas circunstâncias, o desconhecido passa a ser visto justamente como sua maior virtude.
Mas também é preciso lembrar que essa aposta pode produzir frustrações. A novidade pode perder força à medida que o eleitor comece a perguntar não apenas o que o candidato promete, mas como pretende realizar aquilo que promete. É nesse momento que a experiência, o conhecimento da máquina pública e a capacidade de enfrentar problemas concretos podem fazer a diferença.
O eleitor brasileiro já viveu experiências em que a promessa de renovação se transformou em decepção. Já apostou em candidatos apresentados como salvadores da pátria, acreditando que a ausência de experiência política era uma qualidade e não uma limitação. Os resultados, em alguns casos, foram desastrosos.
Por isso, a questão que se coloca agora é inevitável: será que o brasileiro vai querer errar novamente e investir na interrogação?
Escrever livros de autoajuda pode transformar alguém em um escritor de enorme sucesso. Administrar uma nação tão grande e complexa como o Brasil, entretanto, exige muito mais do que a capacidade de produzir sonhos. Exige conhecimento, experiência, preparo, capacidade de decisão e, sobretudo, compreensão da realidade.
Augusto Cury é a novidade das pesquisas. Resta saber se será também a novidade capaz de sobreviver ao escrutínio de uma campanha presidencial.
Os próximos dias dirão se estamos diante de uma verdadeira alternativa eleitoral ou apenas de mais uma onda passageira produzida pela insatisfação do eleitorado