Política desvirtuada

Temos acompanhado com muita atenção às entrevistas e postagens nas redes sociais de pré-candidatos a cargos legislativos, os postulantes às duas cadeiras no Senado da República e às 12 cadeiras na Câmara dos Deputados.

Talvez não haja mais razões para surpresa, mas as coisas andam bastante mudadas na seara política. Com as exceções de candidatos bem mais à esquerda ou à direita, ou seja, os mais radicais, e alguns defensores de minorias, a grande maioria dos pretendentes a ocupar as funções de deputado federal e senador só promete resolver problemas na área de infraestrutura, saúde e geração de empregos emprego, etc. Há quem garanta ter soluções para o grave problema da violência e a intricada questão da indústria nacional. Prometem resolver tudo ou quase tudo.

Tirando não mais do que meia dúzia, todos os outros candidatos – algumas dezenas – parecem acreditar piamente que, se eleitos, vão comandar elevados orçamentos e poderosos cargos executivos.

Não que não tenham acesso a recursos dos orçamentos públicos, mas ou se enganam redondamente sobre o poder que podem ter ou, como parece mais lógico, enganam deliberadamente o eleitor.

Essa face da enganação ao eleitor com promessas de campanha é um triste lado de política nacional, instituído desde que inventaram eleições no Brasil. Mas a situação piorou e tem explicações.

A tal das emendas parlamentares de execução obrigatória, sejam as individuais, de bancada ou de comissões, está desvirtuando tudo.  Não existem mais candidatos ao legislativo. Não existem mais políticos vocacionados a propor e elaborar leis, a discutir e a formular, através de intensos e amplos debates, consensos para a solução dos problemas coletivos do país.

Os políticos perderam a capacidade de pensar e agir como pessoas públicas, com responsabilidade pública, que implica na preocupação com o país como um todo. Perderam a noção de que uma boa lei pode impactar e melhorar a vida de milhões de pessoas.

É profundamente lamentável perceber que senadores e deputados federais agem como prefeitos ou vereadores de pequenos municípios.

São inúmeras, por exemplo, nas notícias de senadores e deputados entregando tratores ou outras máquinas em comunidades rurais, diretamente a presidentes de associações locais, distante do prefeito que não é seu aliado. Lógico que isso compromete o voto e satisfaz o parlamentar, mas não é essa sua função e não é esse o papel do parlamentar.

A democracia brasileira está capenga por causa desse tipo de mentalidade desvirtuada. O Congresso avança no controle de cada vez mais recursos da União e reduz a produção legislativa, dando vez a que o Judiciário seja chamado decidir em seu lugar. Os desvirtuamentos de funções do Legislativo e do Judiciário acabam atrapalhando o Executivo, que acaba buscando atalhos para tentar demonstrando força. A verdade é que está tudo errado.

Não há dúvida que muita coisa precisa ser refundada na política brasileira. O problema é que as mudanças dependem dos políticos e, pelo visto, eles não desejam mudar. A responsabilidade última termina sendo do eleitor, que, lamentavelmente, ainda não tem consciência de sua força.

É trágico, então, verificar que o país está às portas de uma eleição, que seria o instrumento para o início de um processo de concertação nacional, e perceber que a tendência é que, na política, tudo se mantenha desconsertado.

Mais trágico ainda é constatar que a sociedade se mantém apática a toda essa situação.

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