Getúlio Vargas e Lula da Silva (3)

Getúlio viveu no intrincado ambiente político, junto com sua família, desde sempre, o pai, general Manuel Vargas, fiel aliado de Borges de Medeiros e Júlio de Castilho, dos dois maiorais da Primeira República no violento Rio Grande do Sul. Getúlio foi o terceiro, já no alvorecer de novos tempos. Advogado, promotor, deputado estadual, líder da bancada na Câmara Federal, ministro da Fazenda de Washington Luís, sem nada entender de finanças, e governador, tudo sabendo de política, de cavilosas artimanhas, bondades e vícios, por experiência vivida.

O mundo real mudou.

E muito no Brasil periférico no contexto geopolítico global. Sem ser teórico ou sabichão, Vargas sabia ouvir. Por isso, muito aprendeu no dia a dia das disputas, naquele ambiente de mudanças econômicas, nas relações sociais, no arcabouço político. Daí o sucesso que o levou a ser o pioneiro da modernização na sociedade brasileira, desde quando foi escolhido chefe de amplo movimento nacional que convergiu para a revolução de 1930, começo de nova etapa reformista da República.

Alguma semelhança com Lula?

O retirante de Caetés ambientou-se no núcleo mais industrializado do Brasil, vendo irmãos e amigos integrados à luta sindical reivindicativa, muito difícil sob a ditadura. Lula nutria aversão à política! (Guardo na memória célebre entrevista à revista Veja). Mais tarde, após emblemáticas mobilizações operárias por melhorias salariais nas greves do ABC e sua consequente prisão, é que Lula se cercou de gente interessada em formar um partido político diferente.

Hoje ele diz “eu criei um partido político”. Errado. O PT nasceu de construção coletiva, da confluência de três segmentos expressivos da sociedade: a) Igreja Católica com seu trabalho de formiguinha, sobretudo nas Comunidades Eclesiais de Base; b) antigos militantes de partidos comunistas e anarquistas; c) intelectuais de dentro e de fora das Universidades. Eleito constituinte, em 1986, Lula se viu de repente num mundo estranho, muito diverso das mesas de negociações, frente à frente com empresários.

Cadê os companheiros operários?  

Contavam-se nos dedos das mãos. Daquela base brotou um partido mais abrangente do que os dos comunistas. Vicejou com capilaridade jamais atingida no Brasil. Partido construído à luz do sol, em plenárias cheias de divergências, intrigas, desavenças, gritos e insultos!

Muitos anos antes, afastando-se dos “tenentes”, reprimindo à resistência armada da burguesia paulista, em 1932, surgira o ensaio democrático da verdade das urnas com a Justiça Eleitoral, o voto universal, secreto e direto, testado em poucas eleições. Do namoro com os comunistas e integralistas, junto com os militares, Getúlio passou à repressão e à ditadura.

O Estado Novo durou sete anos.

Em 1945, Getúlio foi apeado do governo, mas não da política. Entre conchavos, criou dois partidos: PSD e PTB, nos quais, acomodaram-se conservadores e progressistas. Eleito senador e deputado, pelo PTB, por vários estados, não suportou a pressão udenista conservadora. Em 1947, isolou-se em São Borja.

Voltou em 1950 nos braços do povo. Embora em tempos históricos distintos, Getúlio e Lula se encontram nas ruas! Um vindo do autoexílio em São Borja. O outro, da prisão na “república Curitiba”. Remoçados, com visão clara do que fazer!

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