Fechando as porteiras

Considerado um dos principais responsáveis pela segurança alimentar global, o agronegócio brasileiro atravessa uma de suas fases mais críticas de sua história, acumulando dívidas na ordem de R$ 180 bilhões, o que desencadeou uma onda de quebradeiras no setor. Segundo a agência Reuters, somente no ano passado, 2.398 propriedades rurais, dadas como garantia de empréstimos inadimplentes, foram tomadas por credores impacientes, fato que vem disparando o número de leilões de terras agrícolas. Em 2025, esse tipo de leilão passou para 14.219 fazendas, registrando um aumento na ordem de 30% em relação a 2024. Já os leilões e as tomadas desses imóveis em procedimentos extrajudiciais, processualmente os mais rápidos, chegaram a 2.398 em 2025, quase o dobro de 2024.

A constatação final de que o setor beira a bancarrota, se algo não for feito, veio quando o Banco Central anunciou que a dívida do crédito rural brasileiro, que envolve inadimplentes, dívidas renegociadas e reestruturadas, abriu este ano em R$ 171,2 bilhões, quase quadruplicando nos últimos dois anos. Na outra ponta, explicitando a situação periclitante, a agência de crédito Serasa Experian anunciou que os pedidos de recuperação judicial tiveram um aumento de 56% no ano de 2025, após mais que dobrarem em 2024.

Pode parecer um paradoxo, mas, afinal, o que levou o agronegócio brasileiro, depois de apontado como o celeiro do mundo e uma das maiores potências agrícolas do planeta, a se meter nessa enrascada? Hoje, o Brasil é líder mundial nas exportações de soja, café, açúcar, suco de laranja, proteína, carne bovina e carne de frango. O setor responde por cerca de um quarto do PIB nacional, gera aproximadamente 28,5 milhões de empregos e garante a maior parcela do superávit da balança comercial do país.

E o que é mais curioso: o agronegócio brasileiro já deu e dá demonstração de que o Brasil pode competir de igual para igual com qualquer economia do mundo. Enquanto diversos players mundiais dependem de grandes subsídios estatais, o campo brasileiro conquistou mercados internacionais pela eficiência, produtividade, inovação e capacidade de produzir alimentos em larga escala, mesmo com um crédito rural subsidiado infinitamente menor, comparado ao dos nossos principais concorrentes internacionais.

Na verdade, o grande problema do agro brasileiro não está da porteira para dentro, e sim da porteira para fora. É lá que reside o chamado “custo Brasil”, que interfere em toda a cadeia produtiva do setor.

Além de conviver com instabilidades climáticas, câmbio adverso e volatilidade dos preços dos insumos no mercado internacional, o agronegócio brasileiro sofre com um ambiente de negócios hostil, aliado à insegurança jurídica, à burocracia excessiva, às estradas esburacadas, aos portos sobrecarregados, às ferrovias insuficientes, à elevada carga tributária e ao crédito caro, fatores que retiraram a competitividade do setor.

É chegada a hora de o Estado brasileiro deixar de ser um obstáculo e tornar-se um parceiro do setor, concentrando investimentos em ferrovias, hidrovias, portos, armazenagem e inovação, ofertando crédito com taxas de juros decentes que possam devolver a capacidade competitiva do setor. Sem uma proposta consistente do Estado para a repactuação, refinanciando a sua dívida rural, o agronegócio brasileiro corre um sério risco de, literalmente, fechar suas porteiras.

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