Em artigo anterior falei de contrastes entre Vargas e Lula, que vão muito além do berço e da região onde nasceram. Citei situações notoriamente diversas na trajetória de cada um e também apontei semelhanças de conduta daqueles dois homens públicos. Continuo, hoje, percorrendo seus caminhos.
Getúlio nasceu na planície gaúcha, onde cresceu ouvindo narrativas de brigas, disputas violentas entre famílias, traições, assassinatos, rebeldias, longas guerras entre facções partidárias, comandadas por homens forjados nos embates guerreiros. De um lado e outro da fronteira sul do Brasil. Anos depois, ele mesmo viveu esse clima de embates na própria família, como advogado e deputado estadual.
Luiz Inácio, ao abrir olhos e ouvidos, já escutou lições de dona Lindu, repartindo o pouco para muitos. Mais tarde continuou a vê-la praticar gestos semelhantes quando, já São Paulo fugida da seca, repartia com todos os frutos do trabalho dos mais velhos. Impressões da infância marcam ricos e pobres. Nessa época Getúlio era personagem da história.
Muito antes, no início do século XX, o estudante de direito já mostrava sinais de rebeldia e conciliação. Entre leituras dos clássicos, mergulhado em compêndios jurídicos, filosóficos, abraçou o positivismo de Auguste Comte, moda ideológica de então, embora contestada. Não havia concluído ainda o bacharelato, já Borges de Medeiros, sucessor de Júlio de Castilho, o primeiro grande chefe republicano gaúcho, lhe assegurava uma Promotoria de Justiça em Porto Alegre! Não demorou dois anos, Getúlio foi ajudar o pai, general Manuel Vargas, na intendência (prefeitura) de São Borja.
Em 1909 integrou a chapa de deputados estaduais do Partido Republicano, com 26 anos, eleito às custas do bico-de-pena nas listas de votação e atas falsas da Primeira República. Reeleito em 1913, renunciou no discurso de posse por divergir da conduta do chefe Borges de Medeiros, que mexera em amigos leais aos Vargas.
Anos mais tarde veio a reconciliação.
A partir daí, Getúlio passou a brilhar como deputado estadual até que foi eleito federal, ocupando mandato-tampão pela morte de um oposicionista, a partir de 1923, em eleição “fabricada”, nos mesmos moldes da própria escolha de Borges para governador no ano anterior. Vitória, aliás, conquistada num arranjo esmerilhado por Getúlio, como presidente da Comissão encarregada de verificar a votação e proclamar os eleitos. Era assim na Velha República! Prática abolida pela legislação, fruto da revolução de 1930, com a criação em 1932 da Justiça Eleitoral e a instituição do voto secreto e direto. Vargas sabia o que fazia.
Durante os anos de exercício político-partidário, num singular estado dominado por disputas que, muitas vezes, terminavam em atentados, emboscadas e mortes, Getúlio firmou convicções que viria a aplicar ao longo de sua atribulada trajetória de dirigente revolucionário, ditador e presidente eleito em pleito democrático. A carta-testamento é peça histórica fundamental, reflexo de ações que Vargas desenvolveu no Brasil por ter vivido anos de experiência no Rio Grande do Sul.
E Lula da Silva? Fica para o próximo capítulo! Hoje, Getúlio invadiu o espaço que lhe dedicaria.