Ainda morando em Cajazeiras, antes de ir estudar em Fortaleza (1956), o rádio era a grande atração da casa. Quase sempre controlado por minha mãe, que costumava ligá-lo em horários de noticiosos, programas culturais ou educativos. Uma noite, sentada na cadeira ao lado do receptor, ela escutava baixinho, com muita atenção, todos os sentidos concentrados naquele som vindo de longe.
Mamãe, a senhora está ouvindo o quê?
– Novela, meu filho.
Novela? Mas papai disse que novela era coisa do mal!
– Ora, essa novela é baseada no romance O sertanejo, de José de Alencar. Eu já li o livro. Não tem nada demais.
Nas brumas do passado, representada ao vivo pela Rádio Sociedade da Bahia, constava da vasta programação artístico-cultural muito bem aceita pela população. Assim, sem fazer estardalhaço, dona Belinha alterou uma diretriz “moralista” ditada por meu pai. Amigas da vizinhança vinham ouvir os capítulos! Esse fato teve enorme repercussão na moldagem de minha formação ao despertar em mim senso crítico, portanto, contribuindo para me ajudar a enxergar o que é certo ou errado. Tenho sempre presente em meu jeito de ser o belo ensinamento prático de dona Isabel, reforçado por muitos outros, ao longo da infância e adolescência. Hoje vejo com clareza a fonte de sabedoria que era minha mãe. Admirável! Nem sequer concluíra o curso normal, fisgada que foi dos estudos aos 17 anos para casar com o viúvo de 34 anos, Cristiano Cartaxo.
O ensino em Cajazeiras só ia até o ginásio.
Então fui continuar em Fortaleza. A viagem se fazia na “sopa” (um caminhão com cadeiras de tábuas) de Cirilo. A linha semanal Cajazeiras-Fortaleza saia às 17 horas do sábado, pernoitava no Icó e chegava ao destino na noite de domingo. Viagem empoeirada tinha como alternativa ir por trem, fazendo baldeação em Antenor Navarro (São João do Rio do Peixe), com pernoites em Iguatu e Senador Pompeu. Mais tarde, a “sopa” foi substituída por um micro-ônibus. Alegria, alegria! Saia as duas horas da madrugada e chegava à tardinha do domingo em Fortaleza.
Tenho lembranças fortes dos seis anos que estive em Fortaleza, para estudar, ligadas à chegada de novas emissoras: Rádio Dragão do Mar e Uirapuru. Antes, só havia Ceará Rádio Clube e Rádio Iracema. A Dragão do Mar reunia equipe arretada: Blanchard Girão, Cid Carvalho, Paulino Rocha, Peixoto de Alencar. A campanha eleitoral de 1958 ficou famosa pela oposição à candidatura de Virgílio Távora, ao final, derrotado por Parsifal Barroso, a quem dei meu primeiro voto. O slogan, Meu avô já dizia, havendo outro não vote em Távora, era repetido a todo instante! Como um dos dirigentes da União Estadual dos Estudantes, concedi à Uirapuru minha primeira entrevista (1961), acerca da mobilização estudantil, após a renúncia de Jânio.
Em fevereiro de 1962 fui morar na Bahia.
Alteração brutal na minha vida, mas em julho fui ao congresso anual da UNE, realizado em Petrópolis. Tempos do governo de Jango. O hábito de escutar rádio persistia em Salvador. A copa do mundo daquele ano, repartia com sobrinhos, filhos mais velhos de meu irmão Rafael, adivinhar por primeiro a música tocada na Rádio Cruzeiro era brincadeira recorrente. Hoje restam suspiros!