Políticos tiram proveito, mas não têm compromisso com o São João

O momento talvez peça uma reflexão sobre o São João do Nordeste. Sobre modelo, evolução, problemas e sua importância para a economia da região.

Foque-se, inicialmente, na relação dos festejos juninos com gestores públicos, políticos e candidatos. A praxe não se quebrou nas duas primeiras semanas junho deste ano: há um vistoso desfilar de políticos nos eventos os mais diversos. Por se tratar de ano eleitoral, os candidatos aos cargos mais importantes parecem fazer esforços para aparecer nas grandes festas, mas, como o período de pré-campanha, devem aparecer em qualquer arrasta-pé.

Pela romaria dos candidatos nos arraiais, é de se concluir que, embora profissionais da comunicação dos candidatos duvidem do retorno eleitoral direto, parece funcionar a avaliação de que a ausência pode causar prejuízo maior e, então, opta-se pelas vantagens dos vídeos produzidos para as redes sociais e, quase sempre, pela a ajudinha do locutor, no discurso do prefeito ou  um alô ou gesto de um grande artista.

Seja como for, a verdade é que políticos de uma maneira geral e candidatos, em particular, tiram bom proveito das festas de São João, sem dúvida, a maior festa popular do Brasil.

Aqui entra um segundo ponto da reflexão. O carnaval parece até exibir maiores concentrações de público, mas, observe-se, que em poucas cidades e em curto espaço de tempo. Já os festejos juninos se espalham por algumas centenas de nove Estados do Nordeste, sem deixar de se fazer presente na periferia de São Paulo e outras grandes cidades do sudeste. Por isso é a maior festa popular do Brasil e a maior vitrine dos políticos.

Mas há uma curiosidade intrigante: o que falam os políticos e candidatos em entrevistas nos arraiais juninos ou mesmo em suas postagens nas redes sociais sobre o São João? A resposta é a mais vazia possível: nada de relevante. Existem elogios à grandiosidade dos festejos, registros sobre o tradicionalismo ou alguma coisa sobre a necessidade de resgate da tradição do São João. A rigor, nada expressivo. Um sabugo sem milho. Ou simplesmente nada. É como se o São João do Nordeste fosse apenas uma paisagem bem colorida.

O que pensam os candidatos a gestor público ou parlamentar sobre a crescente restrição aos artistas genuinamente do forró nordestino e a invasão dos sertanejos? O que pensam sobre o pagamento de cachês milionários aos sertanejos em cidades com serviços de saúde precários ou salários de servidores atrasados?

Não dá para não registrar que se calam pela conivência com o modelo que vem sendo adotado e que cada vez mais tem sido financiado por emendas parlamentares, que são não apenas um grave desvio na finalidade de aplicação de recursos públicos, mas também como fonte, conforme apontamentos dos órgãos de controle, de desvio de verbas.

Por que o São João do Nordeste, que na maioria dos grandes eventos perdeu as características tradicionais e virou meros festivais de músicas (com shows para todos os gostos), não se transforma num grande negócio cultural e popular?

Na Bahia, o axé, além de marcar culturalmente o Estado por ocasião do carnaval, é um negócio que pulsa emprego e renda durante o ano inteiro. As escolas de samba no Rio de Janeiro e São Paulo são também movimentos históricos e tradicionais que mantém vida produtiva e econômica permanente. O frevo de Pernambuco é outro exemplo de movimento histórico-cultural que ganhou e consolidou amplo ativo econômico.

A economista Tânia Bacelar tem sustentado que cultura é economia e que a produção cultural é um importante motor de desenvolvimento, defendendo que a economia criativa precisa se fazer presente na pauta de desenvolvimento do Nordeste.

Essa voz precisa ser ouvida. Os tradicionais festejos juninos precisam ser transformados em motor de desenvolvimento econômico da região.

Só que isso nunca vai acontecer enquanto os políticos da região enxergarem as festas de São João apenas como um evento para descarregarem emendas parlamentes e um momento para se tirar uma casquinha eleitoral.

Os políticos não falam nada de relevante em suas andanças de festa em festa porque parecem incapazes de conceber projetos ou modelos de desenvolvimento novos e pela total ausência de compromisso com o verdadeiro São João do Nordeste.

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