Meus caros. Vou lhes relatar uma estória de ficção que não tem nada a ver com a realidade. Nem pessoas, nem locais, nem a sequência dos acontecimentos têm alguma coisa que se relacione com a verídica.
Numa cidade do extremo sul do nosso país, na fronteira com o Uruguai, existia uma família de triticultores da região, possuindo, inclusive, uma pequena fábrica de macarrão. Em suas terras, ainda criavam gado. Perto da fábrica de macarrão vivia uma família que, há anos, servia aos proprietários. Um de seus filhos, cujo pai era meio irresponsável e deixava de pôr lenha na caldeira, por vezes, quando estava bêbado, era muito esforçado e trabalhava como faz-tudo: ensacava o trigo, ajudava nas máquinas e ainda estudava com afinco.
Os proprietários, vendo o esforço desse rapaz, compraram os livros para ele poder prestar o vestibular em Porto Alegre, pagaram as passagens e demais despesas, e ele passou no vestibular de Medicina. A universidade era federal, mas havia despesas com estadia na capital gaúcha, além de alimentação, vestuário etc. Os proprietários estabeleceram uma “mesada”, que nem seus familiares de sangue tiveram, e o ex-funcionário, depois de muito esforço, logrou formar-se médico.
Voltou à sua cidade de origem e começou a trabalhar. Posteriormente, descobriu-se que era homoafetivo, mas em nada isso acrescentou ou diminuiu sua competência. Numa cidade do interior gaúcho, porém, era algo pouco “admirado”, especialmente no final da década de 1970. Era afrodescendente. Tive um professor que me dizia que, numa sociedade excludente como a nossa, você não pode ter mais de um “defeito grande”: não podia ser, ao mesmo tempo, pobre, feio, negro, burro e homoafetivo. Nossa sociedade, em especial a dos nossos interiores, é cheia de preconceitos. Não podemos mudar essa sociedade hipócrita, mas ela está aí…
Mas ele melhorou a vida de sua família, de suas irmãs e de seus “amantes”. Acostou-se a um médico tradicional, que foi prefeito, e, ao assumir a Prefeitura, deu bastante espaço para ele e uma vaga no hospital da cidade, como médico plantonista.
Nunca agradeceu, nem lhe foi pedido pela família que o apoiou qualquer agradecimento, mas nutriu por essa família um certo distanciamento, inclusive no campo social. Quando foi necessário contratar um médico para exercer o cargo de médico do trabalho da fábrica, ele cobrou como se um fosse e distribuía atestados para os funcionários, quase sempre de 15 dias, o prazo máximo permitido por lei. Até hoje, esses atestados estão arquivados na fábrica. O Ministério do Trabalho exigiu um médico com especialização nessa área. Consultado e com a garantia de que todas as despesas seriam pagas pela empresa, recusou-se a fazer a especialização exigida.
Então apareceram médicos especializados na cidade. Os fiscais do Ministério do Trabalho, numa fiscalização rotineira, demonstraram a existência desses profissionais na cidade, e a empresa teve que contratar um desses especialistas. Quando o antigo funcionário soube de sua demissão, ficou com uma mágoa enorme da empresa, por causa de sua não qualificação para o cargo.
O novo médico passou a fazer o que deve fazer um médico do trabalho: exames periódicos, não fornecer atestados por coisas como “ressaca” e, quando concedidos, de dois ou três dias, elaborar o PCMSO junto com o diretor técnico, que era especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho, e a empresa, por fim, colheu os frutos dessa nova mentalidade.
Formou-se, mas não evoluiu com o tempo, e não evoluir nesses tempos significa “involuir”. Sempre desprezou os que lhe deram a mão. Quando os membros dessa “família maldita” eram internados nos seus turnos de plantão, desprezava-os.
Morreu há pouco. Deve ter salvado muitas vidas. A cidade gaúcha em que nasceu e residiu lhe deve favores. Mas a “família maldita” nada lhe deve; poderia ter financiado outro. Um de seus filhos legítimos chegou a passar necessidades quase absolutas no ensino superior. Mas o “protegido” nunca reconheceu. Vá em paz…
P.S. – Isto é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos, lugares e acontecimentos reais é mera “coincidência”.