O achismo e a tradição oral

Meus caros e heróis, eu, na minha condição de muar, que, por uma falta de acertos médicos, consegui sobreviver, aos nove dias de vida, em 1956, a uma dose cavalar de morfina, que nossas diligentes enfermeiras do HRC confundiram com água destilada e me aplicaram. Graças ao recém-instalado “balão de oxigênio”, consegui expeli-la em 48 horas, para desgosto geral da nação. Recebi o nome de Saulo para que, na minha caminhada ao Hades (a mansão pagã dos mortos que aparece no Pai-Nosso), fosse batizado com nome de santo e continuasse a ocupar as cansadas retinas de vossos olhos com minhas idiotices.

A última que publiquei neste veículo foi uma referência às histórias familiares que eu recebia de minha avó materna, que, por sua vez, se referia a outras contadas por seu pai, Coronel Joaquim Gonçalves de Matos Rolim, um dos maiores mentirosos de Cajazeiras. Tanto mentiu que chegou a ser eleito o primeiro prefeito da cidade por voto direto e secreto. Além disso, quando faleceu, deixou uma fortuna falsa de R$ 400.000 (quatrocentos mil contos de réis), uma micharia com a qual teria ido ao Rio de Janeiro obter uma carta-patente para fundar um banco.

A “estória” que o Capitão Salviano Gonçalves de Matos Rolim contou a seu filho sobre como se deu a construção do antigo açude que deu origem ao atual centenário Açude Grande foi considerada fruto de “achismo”, e que deveríamos aguardar o veredicto da História.

Bem, na condição de um quadrúpede que fica espalhando falsas narrativas, tenho a lhes informar o seguinte: qual teria sido o motivo de o saudoso Capitão Salviano, no final do século XIX, inventar essa mentira para transmiti-la ao filho, e este, por sua vez, achar essa estória fantasiosa suficientemente crível para contá-la à própria filha, que depois a repassou para mim?

Isso foi considerado “achismo”, mas, infelizmente, ninguém apresentou nenhuma prova histórica sobre essa construção. A isso eu, na minha obtusa opinião, chamo de “tradição oral familiar”.

Os povos ágrafos da África, assim como nossos nativos originários, que também não sabiam ler, tinham o costume de reunir os mais jovens de suas comunidades ou tribos para transmitir o conhecimento de seus ancestrais. Isso é o que conhecemos como tradição oral.

Na minha obtusa opinião, achismo é a história de uma mulher oriunda de uma costela de seu macho, que ouviu uma serpente falar, apesar de as atuais serpentes não possuírem pulmões nem aparelho vocal, e que a convenceu a comer determinado fruto, levando-a também a convencer seu marido, desprovido de uma costela, a comer da mesma fruta. Então foram expulsos do Paraíso. Isso, contudo, não é considerado achismo, mas a Palavra de Deus.

Nunca se cogitou considerar essa possível tradição oral que, ao longo de mais de 5 mil anos, teria se transformado nessa história com chancela divina.

Talvez fosse mais crível que o Capitão Salviano tivesse dito a seu filho que Ana de Albuquerque pedira a Nossa Senhora da Piedade que os anjos construíssem um açude para que ela e seus descendentes pudessem beber de suas águas e cultivar suas vazantes. Nesse caso, haveria um elemento milagroso aparentemente mais aceitável e histórico.

Por enquanto, fico a ruminar grama, esperando que os documentos históricos venham à luz. Tentei apresentar a minha tradição oral, mas ela foi considerada “achismo”, sem que aparecesse qualquer prova histórica ou outra tradição oral mais abalizada que me contradissesse.

Fico com uma das últimas frases atribuídas a Goethe: “Mehr Licht!” (“Mais luz!”, em alemão). Ou com outra do mesmo autor, já traduzida: “Nada é mais terrível do que a ignorância em ação.”

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