Naturais comentários

O comentário surge como natural em uma roda de conversa: – “Ora, é muito mimimi esta história de assédio e preconceito. Agora, não se pode mais fazer qualquer comentário sobre a beleza, ou a feiura de uma mulher, seus atributos corporais e de prazer, que logo vem a advertência”.

A reação ao comentário também se mostrou natural e muitos presentes concordaram que está havendo um “policiamento desnecessário” ou “um exagero político de sempre atribuir um elogio como preconceito, discriminação ou assédio”.

Comentários que desencadearam um turbilhão de reflexões em minha cabeça.

Afinal, seria mesmo “mimimi” tratar as mulheres com referenciais que, historicamente, foram elaborados, construídos e propagados como naturais por ser produto da visão de mundo construída pelos homens. Homens que, posicionados na condição de superiores, dominam o mundo público, enquanto às mulheres se resume as cavernas onde procriam e alimentam as crias, preparam os alimentos e nada mais.

Assim, as mulheres não carecem estimular ideias, organizar estratégias, elaborar conteúdos, fórmulas, desenhos para se posicionar e conviver no mundo, superando desafios e produzindo novas modalidades de vida e de história. Basta apenas repetir o trabalho reprodutivo e, como nos lembra a pensadora Sílvia Federici, “Negar valor ao trabalho reprodutivo é negar valor à própria vida das mulheres que o realizam e à reprodução da força de trabalho”.

Assim, para as mulheres bastaria apenas e tão somente repetir a natureza. Inclusive, na obediência de suas regras e normas. Conhece-la, não seria necessário e não teria nenhuma utilidade. E quando o faz, são politicamente condenadas. São as mulheres, por sua “natural atribuição”, – historicamente determinada pelo poder masculino -, de zelar pela saúde do grupo, que começam a desvendar as funções e uso das plantas medicinais. Isto, em um momento da história, custou a condenação e a vida de muitas mulheres, transformadas em bruxas e discípulas de demônios apenas e tão somente por   acumularem um conhecimento que lhes daria poder, inclusive, sobre a vida.

Uma transgressão que, alimentada por vieses religiosos, produziu uma verdadeira guerra, condenando muitas mulheres a fogueira e ao silenciamento. Dados organizados por estudiosos estimam que entre quarenta e sessenta mil pessoas foram condenadas e mortas sob acusação de bruxaria, na Europa e nas colônias americanas entre os séculos XV e XVIII. “A grande maioria dessas vítimas — cerca de 75% a 80% — era composta por mulheres”.

Entendemos assim, os comentários da roda de conversa.

Mas, nos apoiando em Silvia Federici, defendemos que, “a caça às bruxas nunca terminou, mas as mulheres também nunca pararam de resistir”.

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