Raimundo Borges de Almeida: o gigante da viola

Meus caros e raros. Nesta quarta-feira, nossa sociedade perdeu Raimundo Borges, um homem verdadeiramente paradigmático em termos da divulgação, composição e outras atividades relacionadas às trovas que, trazidas do cancioneiro medieval, se adaptaram de uma maneira esplendorosa aos nossos “Quentes Sertões do Norte”, como na famosa música do Quinteto Violado. De fato, fica quase sem sentido falar da poesia popular de Cajazeiras sem fazer uma referência bem marcante ao grande — em todos os aspectos, tanto na estatura física como no dedilhar e no versejar — Raimundo Borges.

Conheço muito bem sua filha, Raelza, tanto através de seu esposo, Adjamilton Pereira, como em outras áreas, como sendo uma atuante vereadora, e que seu pai sempre fazia solicitações no sentido de que ela tivesse seu nome sufragado nas urnas, como de fato aconteceu.

Mas, para fazer uma homenagem pessoal à altura de sua figura, vou traçar um caminho um pouco, digamos, diferente. Ele promovia, em sua quadra, um festival de violeiros que era o mais conhecido na cidade e região; convidava os maiores nomes do repente, e eles atendiam ao seu chamado.

Nunca foi minha área específica, mas, como bom nordestino e sertanejo que sou — há controvérsias —, eu tive a oportunidade de estar em um de seus eventos: casa lotada e todo mundo de pé. Eu reconheci, de imediato, o famoso Ivanildo Vila Nova entre os que se apresentavam.

E, depois de ver os “motes” que eram enviados aos cantadores, reparei que eram, na sua grande maioria, exaltações ao passado, e me lembrei de dois fatos.

Uma conversa que tivemos na algodoeira, onde se reclamava das despesas com gasolina, pilhas, energia etc., enquanto antes tudo era mais barato: capim, óleo de mamona, cartas e outras coisas.

Então, o hoje falecido José Lira Braga, de Nazarezinho, fulminou: “Meus amigos; quando eu era menino, a gente comia insosso por três meses, e hoje, se você não botar um ‘tempero’ (carne) na comida, no outro dia o sujeito não vai trabalhar mais…”

Verdade absoluta. Pois, nos invernos, o transporte de sal de Mossoró era interrompido. As chuvas e os rios não permitiam que os animais, geralmente muares, atravessassem os rios e riachos do caminho sem que esse sal se derretesse.

Ainda teve o famoso “saque do trem” de Cedro, no início do século passado. Os coronéis de Cajazeiras mandaram seus cabras “aliviar” um carregamento de sal com destino ao Cariri, pois a cidade estava desabastecida.

Então, pensando nisso, eu inventei o seguinte mote: “Quem hoje critica o rock, ontem comeu sem sal…”

Quando foi lido o mote, os violeiros não entenderam muito bem, e nem me lembro do que foi cantado, mas é minha lembrança desse evento do festival de Raimundo Borges.

Infelizmente, aos 82 anos, Deus houve por bem chamá-lo. Vá em paz. Ficam nossas lembranças e nossa saudade, bem como de sua família. Um Grande se foi…

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