Uma eleição presidencial deveria servir, antes de qualquer coisa, para que o eleitor conheça quem pretende governar o país. Projetos, propostas, capacidade de articulação, conhecimento dos problemas nacionais. É para isso que existem campanhas e, sobretudo, debates. Mas as eleições de 2026 começam a expor um fenômeno que merece atenção: até onde determinadas candidaturas estão realmente disputando votos e a partir de onde começam a disputar audiência, cortes de vídeo e engajamento nas redes sociais?
Não é algo inteiramente novo. O Brasil viu fenômeno semelhante com Pablo Marçal, que transformou confrontos eleitorais em uma poderosa máquina de produção de conteúdo digital. Antes dele, em 2022, Padre Kelmon também saiu de uma eleição na qual teve pouco mais de 81 mil votos nacionalmente muito mais conhecido do que entrou. Não pelas chances reais de chegar à Presidência, mas principalmente pela personagem construída diante das câmeras e pela repercussão alcançada nos debates.
Quatro anos depois, Renan Santos entra nesse cenário com uma diferença importante. Presidente do Partido Missão, legenda surgida politicamente a partir do Movimento Brasil Livre, o MBL, Renan possui projeto político, estrutura partidária e apresenta propostas. Seria injusto, portanto, reduzi-lo à condição de mero personagem. A questão é outra: por que tantas vezes o conteúdo político acaba ficando escondido atrás do espetáculo?
Sua recente passagem pela Paraíba oferece um exemplo. No bairro do Grotão, em João Pessoa, Renan publicou vídeos afirmando estar retirando uma barricada atribuída a uma facção criminosa. A versão ganhou rapidamente as redes sociais, mas depois foi contestada pela Secretaria de Segurança Pública da Paraíba, que afirmou tratar-se de lixo e entulho. Independentemente da disputa sobre a narrativa, a fórmula estava pronta: imagem forte, confronto, frase de efeito, um inimigo identificado e um celular gravando. Material perfeito para circular nas redes.
No primeiro debate presidencial televisionado de 2026, realizado no último domingo, dia 23, a lógica voltou a aparecer. Diante das ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, Renan apareceu com fraldas contendo os nomes dos dois. Houve provocações, ataques e confrontos. Propostas também apareceram. Mas basta perguntar ao eleitor, alguns dias depois, o que ficou mais marcado: as propostas apresentadas ou as fraldas exibidas diante das câmeras?
É justamente aí que está a discussão. Renan Santos está construindo uma candidatura efetivamente voltada para chegar ao segundo turno ou utiliza também a disputa presidencial como uma grande plataforma de projeção pessoal, partidária e digital? Fazer essa pergunta não significa afirmar que sua candidatura seja ilegítima. Significa apenas observar que existe uma diferença considerável entre saber comunicar e transformar permanentemente uma eleição presidencial em espetáculo.
Um candidato pode provocar, usar uma linguagem diferente, ser agressivo e até teatralizar determinados momentos. Nada disso, por si só, o desqualifica. O problema começa quando a encenação ocupa o espaço das perguntas que realmente importam: como pretende governar? Quanto custam suas propostas? De onde virá o dinheiro? Com quem pretende construir maioria no Congresso? O que faria nos primeiros cem dias de governo? São perguntas péssimas para vídeos de trinta segundos. Não viralizam com facilidade, mas deveriam pesar muito mais na escolha de um presidente.
O Brasil já experimentou personagens suficientes na política. Alguns divertiram, outros assustaram e muitos simplesmente desapareceram depois das eleições. A Presidência da República, no entanto, continua sendo coisa séria. Não é programa de auditório, campeonato de lacração ou disputa para descobrir quem produz o melhor corte para Instagram, TikTok ou YouTube. Em 2026, talvez seja hora de o eleitor exigir algo relativamente simples de quem pretende governar o país: menos personagens e mais presidentes.