“O tempo é a única conta que você recebe um crédito quando nasce o resto é débito e você não tem acesso ao saldo”. Ao completar 80 anos de vida ainda não tenho a menor idéia quanto tempo falta ou quanto é o meu saldo. Quando celebrei 60 anos fiz esta mesma indagação, também aos 70 e agora o faço aos 80, quanto tempo eu tenho pela frente? Mas, este saldo só quem pode responder é Deus, pois o mesmo tem sido extremamente bondoso comigo, pois já estive em suas mãos por várias vezes e ele me concedeu mais saldos em minha conta do tempo.
Quando minha mãe completou 80 anos de vida perguntei a ela: como está a senhora? “estou pronta para ganhar a eternidade, não tenho medo do meu tempo se acabar aqui na terra” e debulhando as contas do seu rosário, talvez pedisse mais créditos para continuar rezando para os filhos e netos ou armazenava suas orações para ganhar uma vida eterna com muita luz e paz. Quando ela completou 90 anos, na minha presença diária em sua vida, voltei a conversar com ela, desta vez tentando por mais crédito em sua vida: está preparada para celebrar os 100 anos? “Estou nas mãos de Deus”, respondeu-me.
Meu pai celebrou os seus 80 anos e faleceu dois anos depois e minha mãe festejou 90 anos e foi para a alameda da eternidade, também dois anos depois. Não estou profetizando meus seguintes dias de vida, até porque ela continuará nas mãos de Deus e o tempo é o senhor do nosso destino.
Tenho muito que celebrar nesta minha longeva caminhada, nunca imaginei viver tantos anos, mas tenho um bondoso saldo: ganhei oito irmãos, trinta sobrinhos, mais de uma centena de primos, seis tios (as) paternos, 10 tios (as) maternos, uma mulher extraordinária que meu deu três filhos e uma filha e a continuidade da minha família através de seis netos e duas netas, além do entrelaçamento com meus sogros e dois cunhados e seis cunhadas. É um saldo de ancestralidade muito grande.
O poeta cubano José Marti sugere que toda pessoa deve fazer na vida: “ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro”. Esta frase nos fala sobre o legado e coisas que permanecerão para além de nós, quando não estivermos mais neste mundo. Já tenho filhos, já plantei inúmeras árvores e escrevi muitos textos, que planejo juntá-los e republicá-los no que seria o meu livro. Tudo é uma questão de tempo, que não sei qual o meu saldo, mas que pretendo tê-lo para atingir este último desejo.
Tenho fortes lembranças de meu pai, principalmente as de um rosário de contas azuis, que trazia no pescoço e todas as noites, antes de dormir, o rezava, uma reza que ninguém via e cada conta debulhadas nas mãos, guardavam um pedaço do seu coração e encaminhava aos céus um pedido de felicidade para sua família.
E as lembranças de minha mãe? São também em torno da fé e da oração. Em uma rede de varandas, na sala de sua casa, debulhava inúmeras vezes o seu terço ofertado aos santos de sua devoção pedindo tudo de bom para os filhos e netos.
Hoje, com saudade no coração de minha Vó paterna, Bilinha (Isabel), agradeço-a por ter me ensinado a rezar, sentado no seu colo, também aprendi a sonhar e não deixar nunca de amar e esperançar. E de minha vó materna, Benvinda, tenho a forte lembrança de seus belíssimos olhos azuis, que as cataratas já não permitiam mais enxergar e me conhecia pela voz: “é Zeantonio de Mãezinha” e dela recebi muitas lições de vida.
Celebrar 80 anos de vida é uma grande dádiva e só me resta agradecer pela longa jornada, por muitas conquistas e por todos que me ajudaram nesta caminhada. Continuo pedindo a Deus muita sabedoria e saúde.