O hábito de ouvir rádio (4)

Em dezembro de 1963 comecei a trabalhar na Sudene, no dia seguinte à festa de graduação em Ciências Jurídicas e Sociais na UFBA. A vaga fora “guardado”, desde outubro pelo diretor regional, Edvaldo Boaventura. Pistolão? Não. Sorte. Como universitário, eu participara da primeira Pesquisa Nacional de Orçamentos Familiares, da Fundação Getúlio Vargas, cuja supervisão no Nordeste fora repassada à Sudene. O questionário era um catatau impresso de 34 páginas! Muitos pesquisadores desistiam. Eu me segurei. Gostaram de minha aplicação e até fiquei completando o serviço dos desistentes. Um ano depois surge um lugar para bacharel em Direito. Lembraram de mim, mas ainda não concluíra o curso. Então “guardaram” a vaga dois meses! Por isso, não retornei em definitivo para Cajazeiras. 

O hábito de ouvir rádio continuou em Salvador, na casa de Rafael até meu casamento, em dezembro de 1967, com a ex-aluna, militante da JUC, Helena, na Universidade Católica de Salvador, onde passara a dar aulas. Em abril de 1969, fui transferido para o Recife. Chegamos um mês antes do sequestro, tortura e morte do Padre Henrique Pereira pelas forças da repressão, o corpo deformado, encontrado perto da imponente sede da Sudene. Dia 27 de maio. Véspera de meus 30 anos! 

Tempos difíceis.

O Serviço Nacional de Informação (SNI), criado em junho de 1964, já espalhara agentes secretos em todos os lugares, prontos para “dedurar”. A censura de fatos políticos no Brasil era rigorosa, notícias filtradas, adaptadas à conveniência do chamado “sistema”. (O filme O Agente secreto capta muito bem esse clima). Na Sudene era um horror, dada a imagem destorcida que os militares tinham da autarquia. Celso Furtado fora incluído na histórica lista dos primeiros 100 brasileiros cassados por “subversão”!

E cadê o rádio?

Pouquíssimos colegas da Sudene tínhamos o costume de escutar A Voz da América, Rádio Moscou, BBC de Londres, que, vez por outra, davam notícias não divulgadas no Brasil. Janiro Pontes, paraibano casado com Alice, irmã de Abdiel Rolim, um dia me abordou:

– Cartaxo, você vai almoçar em casa?

– Vou sim, por quê?

– Pode me dar uma carona?

– Claro, Janiro, será um prazer.

Morávamos perto um do outro em Boa Viagem. Ao entrar no carro ele me deu a informação, ouvida na BBC, acerca de rumores em torno de pequeno entrevero de forças militares com guerrilheiros no Norte do Brasil, região do Araguaia, conhecida como bico-de-papagaio. O informe era vago, mas indicava existir resistência armada no campo. Uma novidade. Diferente das ações armadas urbanas que vinham à baila quando havia sequestro de diplomatas, empresários, assalto a agências bancárias, troca de tiros com feridos, mortes e prisão de “terroristas”. Janiro não arriscava me falar no ambiente de trabalho do que ouvira na BBC. Ninguém sabia quem era o “dedo-duro” ao redor! Ouvir rádio estrangeira poderia ser considerado ato subversivo! Emissoras de outros países eram uma das poucas fontes de informação para fugir da mordaça da censura imposta pela ditadura.

Menos de dois anos depois, já trabalhando no BNB, em Fortaleza, passei a ter acesso a fontes de outras origens. Aí são outros quinhentos.

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