A justa homenagem tardia

Meus caros leitores. Recebi, no começo desta semana, por intermédio do professor José Antônio, um pedido proveniente do Padre Anchieta, vigário da Paróquia da Sagrada Família, para que fosse aposto, na praça em frente à igreja, um retrato da doadora do terreno em que ela se situa, que é minha tia-avó, Adalgisa Matos de Sá.

Confesso que fiquei, além de sensibilizado com a homenagem, também com o sentimento de que, pelo menos em parte, algum reconhecimento está havendo entre nossos concidadãos para com aqueles que verdadeiramente se dispuseram a contribuir e dispuseram de seus pertences para que nossa cidade não perdesse ainda mais do que vem perdendo para outras.

Vamos recuar bastante no passado. O pai de Dona Adalgisa foi o primeiro prefeito eleito pelo voto direto e secreto em nossa cidade, o Cel. Joaquim Matos Gonçalves Rolim, em 1935. Saiu vitorioso contra uma das mais longas hegemonias de nossa cidade, comandada, desde o século XIX, pelo fabuloso Comandante Vital de Souza Rolim e, depois, por seu descendente Sabino Gonçalves Rolim, que dominou nossa política por muitas décadas, na virada do século XIX para o século XX. Venceu o médico Vital de Souza Rolim por 345 votos, segundo anotações do Prof. José Antônio de Albuquerque. Mas isso não é o que eu quero explicar.

O Coronel Matos, mesmo sendo um homem de posses, sempre foi o maestro da Banda Municipal e continuou exercendo essa função enquanto prefeito. Encontrou a Prefeitura com os cofres praticamente vazios e, quando a arrecadação não era suficiente, pagava os salários dos funcionários do próprio bolso. Construiu o Açougue Público Municipal da mesma forma, onde hoje ele se encontra, reformado, e que recebeu o nome de Leonardo Rolim. Mas a avenida leva seu nome e abriga seu busto.

Sua filha Adalgisa, irmã de minha avó Cecília, foi uma batalhadora pelas causas de nossa cidade e muito lutou para que tivéssemos nossa Banda Municipal de volta, no que foi bem-sucedida.

Na década de 1980, quando o prefeito era Dr. Epitácio Leite Rolim, ela foi avisada por seu filho de que a comissão que iria determinar onde se situaria a futura Escola Técnica Federal da região estaria se deslocando para Sousa porque não havia um terreno à altura. Ela prontamente cedeu 10 hectares de seu loteamento para que essa escola ficasse em Cajazeiras. E hoje o IF de Cajazeiras é o maior, em área, de todo o país.

Quando de sua inauguração, que presenciei, estava a frase que me causa enorme indignação: “Construída em terreno doado pelo Prefeito Epitácio Leite Rolim”. Uma injustiça desse tamanho me causa enorme indignação até hoje. Essa apropriação, por parte de Dr. Epitácio, do terreno doado por minha tia é uma ignomínia vergonhosa.

Além do terreno da escola, ela também doou, como católica extremamente devota que era, outro grande terreno, do outro lado da avenida, para que fosse construída uma igreja. Dessa vez, não foram tão ingratos. A praça em frente à igreja tem o nome dela, e vão apor seu retrato como uma homenagem a uma das pessoas que, na minha opinião, mais contribuíram para o progresso de sua (nossa) cidade.

Minha amada tia Adalgisa, que, com mais de 100 anos, depois de sair da missa, trouxe suas cuidadoras para visitar seu sobrinho (eu), e elas, no portão de minha casa, perguntaram se “eu era alguma coisa dela”. Tinha muito mais lucidez com cem anos do que eu com menos de cinquenta…

Fico.

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