Quando eu tinha meus quinze anos, fui convidado por dona Chiquinha Augusta — mãe de meus amigos Virgílio e Ribamar (Nêgo Riba), hoje cantor das noites de Cajazeiras — para eu trabalhar na tarimba (banca) dela, no Mercado Central, como ajudante de vendedor de sandálias artesanais, porque já era mês de dezembro e, nesse período, com a aproximação do Natal, as vendas crescem. Aliás, o convite foi para eu trabalhar somente aos sábados, por ser o dia em que as pessoas fazem muitas compras.
Ao meio-dia de um belo sábado, dona Chiquinha me falou para eu ir almoçar. Voltei às 13 horas e, poucos minutos depois, quando cheguei na tarimba, percebi que, próximo aos pés da parte da frente da tarimba, tinha umas notas de dinheiro “Cruzeiro” no chão. Dona Chiquinha estava no outro lado da tarimba. Olhei para os lados e, devido ao pouco movimento, não tinha ninguém me observando. Com um leve chute, empurrei o dinheiro para debaixo da tarimba.
O meu expediente terminaria às cinco da tarde. Pensei: “Quando faltar uns dez minutos para o final do expediente, eu pego o dinheiro e entrego para dona Chiquinha e vamos ver o que acontece”. Assim, fiz. Peguei o dinheiro e mostrei para ela. Ela me disse: “Se não aparecer o dono daqui a dez minutos, o dinheiro é seu”.
Olhei para o meu relógio, marca “Lanco”, e fiquei ansioso para terminar o expediente. Parece que, nessa hora, os ponteiros do relógio travaram e os minutos não passavam. Fiquei falando com meus botões: “Tomara que não apareça mais ninguém nessa hora”. Dito e feito. Passados dez minutos, ela me entregou o dinheiro e falou: “Pode ir pra casa”.
Mal ela acabou de falar, saí apressado, em passos largos. Cheguei em casa, entreguei para mamãe fazer compras na bodega de seu Manoel Jovino. “Achado não é roubado”.
Resido aqui em Brasília desde 1972 e, andando pelas avenidas da cidade, nestes cinquenta e dois anos, já achei dinheiro em diversos lugares, mas em pequena quantidade. Com esses pequenos valores, dava para tomar minha cervejinha e gastar com outras pequenas coisinhas, tipo arriscar um palpite em alguma loteria da Caixa Econômica Federal. Nunca ganhei nada nas loterias, porque é dificílima e, em Cajazeiras, eu nunca apostei no jogo do bicho.