Não precisa de mais estudos ou pesquisas ou da certificação de cientistas ou de especialistas para diagnosticar que a corrupção no Brasil é um caso de metástase no estágio mais elevado.
O câncer da corrupção se espalhou, de fato, por todos os órgãos da nação. Não atinge apenas órgãos do Estado ou está incrustado somente nas entranhas dos poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário. Invadiu e corrói todo o tecido social, do empresariado, passando pelos sindicatos e se estendendo até às camadas mais vulneráveis da população. Não existe lugar em que não se possa tentar tirar proveito de algo através de algum subterfúgio ou ilícito.
A constatação é assombrosa, e pode-se condenar a generalização. As exceções à regra podem até ser substanciais, mas não vão modificar o diagnóstico da metástase. A corrupção está generalizada, estupidamente generalizada.
Onde e quando a contaminação se iniciou é questão complexa e que demanda, sim, estudos mais aprofundados. Haverá sempre quem sustente que tudo começou com a chegada dos descobridores ou dos primeiros grileiros, que chegaram ludibriando os nativos com quinquilharias e ainda foram trazendo uma gente suspeita para tomar conta das terras griladas. Porém, não há como negar que a política aperfeiçoou demasiadamente o vírus da corrupção ao longo dos anos.
São muitos os registros de ensaios de disseminação aberta da corrupção no país. Vale lembrar, por exemplo, o caso de um político paulista, Ademar de Barros, que, na década de 1950, deixou incorporar em suas campanhas eleitorais o slogan “rouba, mas faz”. É uma bandeira terrível para a atividade pública, mas, incrivelmente, espalhou-se como cultura e permanece viva país adentro.
Na mesma pegada e com o mesmo espírito, consagrou-se, na década de 1980, o vocábulo “malufar”, que se reportava, inicialmente, à prática de desvios de recursos públicos e depois virou sinônimo popular do crime previsto no artigo 171 do Código Penal, que trata de estelionato, fraude ou obtenção de vantagem ilícita.
Referia-se a Paulo Maluf, que, apesar das inúmeras denúncias de corrupção, se dava bem nos principais cargos públicos em São Paulo e chegou a disputar a Presidência da República. Maluf só foi condenado no fim da carreira política, mostrando a leniência do sistema em relação à corrupção.
Mais recentemente, a partir da redemocratização, as denúncias de grandes escândalos de corrupção se multiplicaram, gerando na sociedade a impressão de que, na política, todos são corruptos. A impressão se espalha para parte do empresariado que mantém relações com a política.
Paradoxalmente ao que deveria acontecer, a ampla divulgação dos escândalos e casos de corrupção, associada à larga impunidade e à sensação de impunidade, ao invés de produzir um sentimento anticorrupção, normalizou a cultura criminosa.
A consequência de tudo isso é terrivelmente nefasta: o eleitor não se importa mais se o político é corrupto ou não, por acreditar que todos são iguais. Pior: grande parcela se aproveita para também tirar proveito.
O caos ético é tão profundo no campo da política que tem gerado cidadãos de moral dupla: aquele que é capaz de sustentar severos discursos contra a corrupção, mas não condena e vota em políticos corruptos. O discurso é uma coisa; o voto é outra.
Tristemente, esse é o quadro que temos às vésperas de mais uma eleição.
Não existe esperança de mudança, sobretudo em relação à composição do parlamento (Assembleias, Câmara e Senado).
A situação, efetivamente, é desanimadora, e não existe outra sensação no momento que não seja a de que o Brasil não tem jeito.
Talvez no horizonte. Na perspectiva de que a própria história nos ensina que as soluções para os problemas mais graves da humanidade nasceram do caos. E não é possível que o Brasil tenha subvertido essa lógica, que tem amparo até na ciência.