Meus caros e raros: vamos de narrativa! Vou narrar dois casos bastante diversos e distantes no tempo e nas localidades, e vamos fazer uma certa comparação com o que, em certos aspectos, “parece” estar acontecendo em um dos poderes de nossa nação-continente.
Quando eu era estudante secundarista em Recife, mantive contatos e alguns relacionamentos com uns colegas que tinham um nome familiar famoso em Pernambuco: Heráclito. Eram descendentes do muito famoso e lendário “Coronel Chico Heráclito”, o homem que, durante muito tempo, segundo eu soube, mandou e desmandou em Limoeiro, Pernambuco, e havia diversas “estórias” sobre essa figura meio mitológica daquela cidade do Agreste pernambucano. Vou relatar uma:
O time de Limoeiro estava jogando uma partida de futebol contra um time visitante, e o Coronel, apesar de desconhecer quase completamente como eram as regras desse esporte, estava presente. Em determinado momento, o juiz assinalou um pênalti contra o time local, e a torcida invadiu o campo, querendo anular o pênalti marcado. O Coronel, a suprema autoridade local, serenou os ânimos exaltados e perguntou: “O que é pênalti?” Explicaram que era colocar a bola na marca e chutar contra o gol. E ele perguntou novamente: “E esse gol acontece?” Disseram: quase sempre, sim. Então Chico Heráclito falou: “Tem que cobrar”. Dito e feito. Cobrado e convertido, ele depois disse: “Agora tem que bater 10 desses no outro gol…”
Outra ocasião, um afrodescendente no Coliseu de Roma foi condenado a ser devorado por um leão. Então enterraram a vítima até restar apenas a cabeça fora, para que não pudesse se defender. O leão errou o bote, passou pela cabeça e deixou sua genitália exposta. O semi-enterrado usou os dentes e mordeu as bolas do leão. Então a plateia gritou:
“Joga limpo, negão!”
Algo semelhante parece que está acontecendo no nosso Judiciário.
Calmamente, pacientes leitores: tudo o que vou escrever nessas linhas é rigorosamente INverdade. Até para me resguardar de alguma iniciativa legal que venha a ser promovida contra mim. Mas, como uma boa narrativa, e como diz o Imortal e atual Ariano Suassuna (depois de morto, cada vez mais imortal e, conforme o tempo passa, mais atual), todo bom narrador é sempre um mentiroso, como seu personagem “Chicó”, do Auto da Compadecida, vou dissertar sobre o ato de tentar e, muitas vezes, conseguir subornar pessoas, autoridades e até instituições das mais diferentes formas.
A viúva de meu pai, quando seu filho problemático, num de seus exageros, foi pego quebrando as lixeiras da cidade, teve a ousadia de adentrar o gabinete do juiz que iria julgar a causa, com o montante que o advogado pediu para defender seu filho, e dizer ao julgador: “Seu Juiz, o advogado está pedindo ‘tal valor’ para defender meu filho. Eu estou aqui com o dinheiro que ele pediu, para entregar ao Senhor que ‘manda’, encerrar o caso e soltar meu filho”. O juiz respondeu mais ou menos o seguinte: “Minha Senhora: eu vou fingir que não ouvi o que a Senhora me disse e exijo que a senhora se retire de minha sala imediatamente…”
No caso, ignorância, mas, na única vez em que eu exerci um cargo público comissionado, nos tempos da administração Denise Albuquerque, como Diretor do Departamento de Recursos Humanos, entre minhas atribuições, eu, como especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho, avaliava as condições dos trabalhadores, atribuindo adicionais de insalubridade/periculosidade. Recebia, muitas vezes, ofertas de pequenas quantias para atestar uma condição excepcional inexistente, o que sempre rechacei. Eu falava: “Não vivi mais de 50 anos para me aposentar com a coroa de ‘velho corrupto’ por essa quantia ridícula”.
Todo homem tem um preço, segundo a máxima popular. Cajazeiras nunca chegou nem próximo ao que eu suponho que seja o meu. E até hoje, de alguma forma, pago por isso.
Nos tempos iniciais do Atlético, eu fazia parte de sua Diretoria, pois fui o primeiro tesoureiro e esse fato histórico não me pode ser retirado. Paguei o primeiro “bicho” da primeira temporada profissional do Atlético, um 4 X 2 contra o Sport de Patos, no hoje Estádio Perpetão.
Numa final de turno, nós íamos enfrentar o Nacional de Patos, no Zé Cavalcanti. Conseguimos “ajeitar” o juiz da partida e fomos com o empate garantido, que nos assegurava a classificação. Apareceu um cidadão aceitando todo tipo de apostas contra o Atlético, e o restante da Diretoria — menos eu, que torço pelo Botafogo e nunca aposto, pois, quando eu aposto, meu time perde — saiu apostando, na ilusão de que o juiz era o suficiente para ganhar essas apostas.
Na partida, constatamos a triste realidade. O “outro lado” tinha comprado nosso ataque, e todas as bolas eram imediatamente “isoladas”. Perdemos de 2 X 0 e todo mundo teve que pagar as apostas. O sujeito chegou a me dar um gol…
Na advocacia, temos os rumores de “juízes de fato” que receberam certas “ajudas” para votarem tendenciosamente. Existe pelo menos um caso famoso em que todos os 21 possíveis jurados foram abordados. Resultado: 7 X 0. Mas faria parte de um passado longínquo. Dá-me vergonha comentar isso, como também generalizar.
Vamos ficar no campo da ficção. Na realidade, Cajazeiras já me julgou e já me condenou faz pelo menos 30 anos… Chega de tanto mentir. É melhor calar por essa vez.