– Xará, você tá sabendo?
– A Fernanda estava no carro com a Marielle e o carro foi baleado… Baleado como? Cadê a Fernanda?
– A Fernanda acabou de chegar em casa.
– E a Marielle?
– Marielle está dentro do carro.
– A Marielle foi atingida? Marielle morreu?
– Sim, mataram a Marielle.
Esse diálogo telefônico se deu entre Marcelo Salles, marido de Fernanda, e Marcelo Freixo, no dia 14 de março de 2018, poucos minutos após a ação criminosa que alcançou também a vida de Anderson Gomes. Usei marcação e resumi o relato extraído do livro Viver é perigoso: minha travessia no Rio, de Marcelo Freixo em parceria com Bruno Paes Manso.
Marielle Franco, nascida na favela da Maré, começou a atuar nos movimentos sociais vinculados às Comunidades Eclesiais de Base, bem antes de 2016, quando foi eleita vereadora no Rio de Janeiro.
Por que mataram Marielle?
No Império os currais eleitorais tinham nos “inspetores de quarteirão” a ponta de linha de comando dos coronéis, donos de terras, gado e gente. Armados de espingardas, facões e porretes eles tangiam os poucos viventes que podiam votar nas eleições primárias, realizadas em igrejas ou capelas católicas.
A República separou a Igreja do Estado, mas os mandões continuaram a agir com a complacência de governadores, que também passaram a ser eleitos pelo voto e não mais nomeados como na Monarquia. Na Primeira República, auge do sistema coronelista, voto, listas de eleitores, atas, comissões de verificação, enfim, toda a engrenagem era uma farsa. O mando real pertencia aos coronéis que disputavam o poder, às vezes, com bacamartes mortíferos. Industriais e comerciantes, poderosos representantes de novas formas de produção e uma ainda reduzida classe trabalhadora começavam a despontar.
Veio a revolução de 1930.
Criou-se a Justiça Eleitoral, permitindo-se o voto feminino, garantiu-se o mínimo de direitos sociais ao trabalhador. Foi um avanço enorme, interrompido por sete anos do Estado Novo. Depois, o coronel ao lado de profissionais liberais e empresários aprimoraram a prática do clientelismo, manipularam a máquina pública, a violência policial e, quando necessário, fraudavam cédulas de votação e boletins eleitorais.
O conluio era quase perfeito.
Aos poucos foram-se reduzindo as armadilhas eleitorais. Foi-se firmando a sociedade industrial, urbanizada, repleta de pobres amontoados nas periferias dos grandes centros, a procura de vida melhor. As drogas também chegaram e se espraiaram sem respeitar classes sociais. Os agentes da nova tragédia da humanidade diversificaram seus negócios que, hoje, movimentam bilhões de dólares no Planeta.
A guerra entre facções virou brutal rotina.
E penetrou Brasil adentro. Até em zonas rurais! O crime organizado, (seja facção ou milícia mancomunada com policiais), delimitou territórios, infiltrou-se no executivo, no judiciário e acampou nos parlamentos. Os currais mudaram de dono.
Quem ousa mexer ali?
Marielle ousou. Foi eleita vereadora com 46.502 votos, quase o dobro dos 23.923 votos de Chiquinho Brazão. Quem? Brazão, preso como mandante da morte de Marielle. O mesmo personagem que nesta quinta-feira, dia nove, é objeto da “Operação Emendatio”, na qual a PF apura desvios de recursos oriundos de emendas parlamentares.