A lembrança vem como um lampejo de momentos quando os irmãos, – crianças e adolescentes -, vem estudar na cidade. Os pais, pequenos agricultores, continuam no sítio e, em esporádicos sábados, dia de feira livre, vem olhar os filhos e atualizar os poucos mantimentos e as necessidades materiais, de saudades e de carinho.
E a lembrança chega em uma prosa com a agente de saúde. Lembrança de uma advertência que era ensinada como regra de sobrevivência no novo mundo urbano, de casas conjugadas, de movimento de veículos e gentes tantas: o de sempre, ao deitar, à noite, colocar uma bacia, ou tigela, com água, atrás da porta principal de entrada da casa.
Ora, qual o sentido desse gesto tão simples?
A resposta ouvia, desde a mais tenra infância, nas prosas e bate papos de boca de noite nos terreiros de Impueiras: se algum malfazejo, aproveitando a calada da noite, tentar arrombar a casa para roubar e fazer outras traquinagens e se, nessa empreitada, ele usar o artifício de fumar um cigarro de maconha, ao soprar a fumaça pelos orifícios de chaves e frestas, a água absorveria a fumaça e lhe anula os efeitos entorpecentes que causaria nos moradores.
Sim, essa era uma prosa bem frequente em conversas de boca de noite. A de que a água tinha a capacidade de absorver a fumaça expelida ao usar o cigarro de maconha. E mais: que apenas a fumaça da erva teria a capacidade de impregnar narinas de pessoas que entrassem em contato com ela, causando os efeitos alucinógenos e paralisantes. Portanto, era regra, sempre a noite, ao nos recolhermos para o repouso do dia de estudos e saudades de Impueiras, ter o cuidado de por uma bacia com água atrás da porta e, assim, garantir a tranquilidade e o sossego necessário para suprir a ausência dos pais e, sobretudo, garantir forças e ânimos para seguir a jornada de estudos e desejos de superação.
O que essa memória traz como tradução de vida é a simplicidade e inocência que, alimentada por uma vida singela, mas rica de vivências humanas e de uma relação saudável com a agreste natureza da caatinga, com suas mães da lua e acauãs anunciando invernadas ou pressagiando secas, nos conduzia para práticas humanas e relações sociais mais tocantes e próximas.
Onde o senhor da terra e o morador partilhavam a mesma marmita de café na pesagem da apanha do algodão ou na divisão da meiagem das roças de milho e feijão. Claro, sub-repticiamente, estavam embutidas as relações de poder. Mas, no cotidiano, dividiam a mesma conversa de boca de noite, a mesma prosa nas calçadas e terreiros nos eventos que antecipavam as renovações religiosas.
E assim, a lembrança nos vem com a sentença que nos anima e nos faz gentes. Sentença dos mais sertanejos dos poetas baianos, Elomar, quando nos ensina: “O sertão não é só a paisagem árida, é o território da alma.”