Resistência

Quando da inauguração da sede da Secretaria de Cultura de Cajazeiras, onde ficará um espaço destinado à memória de Ivan Bichara Sobreira e a sede da ACAL, no casarão que pertenceu a Epifânio Sobreira, na manhã do dia 21 de agosto de 2026, em solenidade presidida pela prefeita de Cajazeiras, professora Socorro Delfino, proferi a seguinte fala:

O governador Ivan Bichara Sobreira, um dos mais ilustres filhos desta terra, em 1984, lançou um livro pela José Olympo Editora, cuja narrativa romanceada se reporta ao assalto do bando de cangaceiros chefiados por Sabino Gomes a Cajazeiras, PB, em setembro de 1926. Denominou este romance de “Carcará”. Na introdução do livro, assim ele escreveu sobre esta ave:

“Depois de peneirar, um instante, no azul,
desceu como uma flecha, as asas meio fechadas,
até o ponto de visar a caça escolhida,
e precisar o bote.
A serpente ainda ensaiou uma volta, tentando
defender-se, mas as garras de aço a
imobilizaram, e as unhas, recurvadas e fortes,
completaram o golpe certeiro,
esmagando-lhe a cabeça.
Rápido, levando a presa, alçou voo na direção
da grande árvore solitária. Construíra,
ali, seu ninho desajeitado, disforme, com
gravetos e restos de raízes úmidas da beira
do rio seco, distante o mais possível da passagem
habitual do homem. Seu pior inimigo era
este, com sua língua de fogo, longa,
ligeira e traiçoeira.
Para viver, era preciso caçar. Sentia prazer
no momento do ataque, na surpresa, no medo
da vítima e, principalmente, no gosto de
sangue que lhe molhava o bico e as ventas
no ato de matar.
Era seu destino”.

Numa manhã sertaneja de agosto, já se tinha notícia do possível ataque de cangaceiros a Cajazeiras, fato que veio a acontecer no dia 28 de setembro de 1926, quando, na sombria tarde, aconteceu a invasão de Sabino Gomes, lugar-tenente de Lampião.

Este casarão representa o símbolo maior da resistência do povo desta cidade. Foi aqui que o Major Epifânio Sobreira, mesmo ferido, e seu empregado José Inácio da Silva receberam a tiros de bacamarte os cangaceiros e os obrigaram a avançar para a Rua Sete de Setembro, atual Avenida Presidente João Pessoa, onde foram surpreendidos pela misteriosa explosão da Usina de Luz e Força, levando os bandoleiros a recuarem.

A essa reação, até o padre e o prefeito pegaram em bacamartes e evitaram mais derramamentos de sangue e mortes.

Agosto é um mês histórico de nossa cidade, porque, bem próximo daqui, na Praça da Matriz de Nossa Senhora de Fátima, aconteceu o famoso Morticínio Eleitoral, em 1872. O seu patamar é lembrado como palco da tragédia, resultante da contenda entre os conservadores e liberais, em plena eleição para escolha dos novos eleitores, no velho sistema de eleição de dois graus, quando, lamentavelmente, resultou na morte do jovem líder político do Partido Liberal João Antônio do Couto Cartaxo, fato que teve repercussão nacional.

Hoje é uma data importante para nossa cidade. Este casarão, que já foi crivado de balas, esteve abandonado por décadas, foi recuperado e novamente depredado por vândalos, hoje revive mais um dia de glória. Resiste e viverá novos dias.

Abre as suas portas para acolher as raízes culturais desta cidade. Este casarão quer se irmanar aos seus filhos, ao seu povo e à sua gente na preservação de sua memória, de sua história e de seu futuro.

Neste dia, seria bom relembrar as mulheres fortes deste Oeste, tão decantadas por Rosilda Cartaxo. Não devemos esquecer de Marilda Sobreira, herdeira deste casarão e uma defensora intransigente do legado cultural e histórico de nossa cidade.

Tem outra forte mulher, dentre centenas: Idalina Albuquerque Cartaxo Matos, que, ao lado de seu marido, o Coronel Matos, criou a Escola de Música Santa Cecília e, em 1918, comprou um piano na Alemanha, transportado de navio até Mossoró e, de lá, para Cajazeiras, em carro de boi, levando quatro meses para chegar. O Coronel Matos e sua esposa transformaram a sua casa em uma Escola de Música.

Não podemos esquecer o quanto as mulheres foram fortes na educação de nossa terra: o exemplo de Vitória Bezerra de Melo. Na época, quase todos os cajazeirenses foram seus alunos. Lecionava em sua residência, na Rua Padre Rolim, e a escola recebeu o nome de Mãe Aninha. Trazer o nome de Vitória nos faz lembrar Angelina Tavares, Carmelita Gonçalves e tantas outras extraordinárias educadoras.

Como é salutar e extremamente importante construir, realizar, resistir, reformar e deixar marcas que ninguém jamais poderá apagar.

Desistir! Jamais! Porque nós temos um compromisso de amor com Cajazeiras. Hoje, aqui, estamos a celebrar nossas conquistas e a renovação do compromisso com o nosso futuro.

Viva Cajazeiras!

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