Encontrei o jornalista Nonato Guedes nesta quarta-feira (1º), dia em que a Rádio Alto Piranhas completou 60 anos no ar. No mesmo ambiente estava Gutemberg Cardoso, que registro também pela sua importância para a comunicação da região de Cajazeiras, embora o foco aqui seja direcionado ao primeiro.
Cajazeiras é sempre lembrada Paraíba a afora, especialmente em João Pessoa, como a terra-mãe de grandes profissionais da imprensa (rádio, jornal, televisão e, agora, da mídia digital). Pois não titubeio em apontar Nonato Guedes como o mais destacado deles, sem desmerecer a grandeza de profissionais de antigas gerações como o escritor e ex-governador Ivan Bichara Sobreira e das gerações contemporâneas, com vários nomes na ativa, entre os quais talvez pudesse ser incluído.
Mas a história de Nonato é singular. Começa com a precocidade em Cajazeiras, quando, ainda adolescente, ascendeu de auxiliar de serviços para o respeitado jornalismo da Difusora Rádio Cajazeiras, passando por um frondoso sucesso na Rádio Alto Piranhas e a consagração na imprensa da Capital.
Durante cerca de três décadas, em João Pessoa, Nonato Guedes sempre esteve em espaços de liderança no rádio, nos principais jornais do Estado (O Norte, Correio da Paraíba e a União), em revistas de vanguarda, como correspondente de jornais nacionais e como apresentador-debatedor de programa com temática política na TV Cabo Branco, afiliada da Rede Globo.
Além disso se posicionou sempre como um dos dois ou três melhores articulistas do jornalismo estadual, com análises profundas, precisas, independentes e corajosas da cena política estadual.
O jornalista Nonato Guedes é um intelectual de respeito e se fez assim em Cajazeiras, com leitura em abundância, participação ativa na vida cultural e política da cidade e atenciosa convivência com a intelectualidade local.
Mas por que relacionar o jornalista Nonato Guedes com o dia do aniversário da Rádio Alto Piranhas? Exatamente porque ele é a imagem de uma das quadras mais importantes da emissora.
A história da Rádio Alto Piranhas é repleta de fases importantes. Em seu início, no final dos anos 1960 e início da década de 1970, houve a predominância de uma programação de qualidade, comandada por padres ou ex-padres da diocese e locutores intelectualizados. Numa segunda fase, entre as décadas de 1970 e primeira metade da década de 1980, imperou a fase do jornalismo criativo, irreverente e independente, com programas de cunho religioso-social, como o Caminho, Verdade e Vida, apresentado pelo padre progressista Gervásio Fernandes de Queiroga, detentor de ampla audiência na Paraíba e no Rio Grande do Norte.
Nonato fez história na Rádio Alto Piranhas nessa fase, com destaque para o quadro de encerramento de programa jornalístico que apresentava às manhãs, intitulado de a “Última das Últimas”, que trazia sempre um furo de reportagem ou uma vigorosa denúncia, e que gozava de audiência quase absoluta.
Há registros extraordinários dessa fase irreverente do jornalismo da Rádio Alto Piranhas, como os programas de debates sem script, que hoje imperam no jornalismo da Paraíba; a revelação do envolvimento do médico Antonio Augusto de Araruna na morte de um menor que estava, com outros, em cima de um pé de manga atrás de sua residência, e a notícia da prisão, em Recife, pela Polícia Federal (PF), do militante político Cajá (Edval Nunes da Silva). Era período da ditadura militar. A PF lacrou o cristal e tirou a rádio do ar durante dois dias por causa notícia. A Alto Piranhas foi a única em todo Brasil a noticiar o fato.
Surpreendeu, nesta quarta-feira, quase 50 anos depois de ter deixado a Rádio Alto Piranhas para se estabelecer em João Pessoa, ver Nonato Guedes mostrar que ainda conservava com ele a logomarca da época e uma foto de Zeilton Trajano, então diretor de rádio. Caso de sentimento enraizado.
Sobre Gutemberg, registre-que seu primeiro programa de rádio foi na Rádio Alto Piranhas, em 1978.
Rondei por perto em quase todos esses períodos.
A Alto Piranhas tem muitas histórias.