Na política talvez não aja nada mais melindroso do que discutir o papel do cidadão nessa barafunda geral de corrupção, ausência de ética, império dos interesses pessoais e grupais em detrimento dos interesses coletivos, escárnio ao sistema de leis e desprezo total aos mais básicos princípios de cidadania e humanidade. O Brasil é o centro da desordem política mundial no mais elevado grau de possível classificação.
O problema é que, ao se falar do “cidadão” em termos políticos, não há como não se remeter ao eleitor. Já houve um tempo que, mesmo no Brasil, eleitor e o cidadania ganhavam definição semelhante. O eleitor quase sempre ganhava status de cidadão.
Por esse viés de estudo estruturado, não é possível responsabilizar o eleitor (cidadão) pela corrupção política generalizada que assola o país, assim como não se pode culpar o pobre pela pobreza, o analfabeto pelo analfabetismo ou o preto pelo racismo. Há fundamentação científica nessa conceituação. Contudo, apesar de a questão ser profundamente melindrosa, não dá para não questionar as razões pelas quais a política está quase repleta de corruptos se a atividade é composta por uma fração da sociedade e se é a mesma sociedade que seleciona seus representantes políticos. Sociedade composta por cidadãos.
A ciência política vai dizer que a corrupção é o resultado da implementação de sofisticados mecanismos engendrado por uma elite do sistema de poder, que desvirtuou e permanentemente desvirtua os sofisticados modelos de representação.
A questão é que, atualmente, a corrupção não é apenas resultado da atuação de uma minoria da elite do poder. Generalizou-se e envolve o eleitor.
A teia não é menos sofisticada. O eleitor tem plano conhecimento de quem são os políticos corruptos e, mesmo assim, vota neles. Na atual quadra da história, a situação chega a ser um tanto mais grave: os eleitores defendem ardorosamente políticos assumida e manifestamente corruptos. Brigam, matam e morrem por seus líderes nefastos.
Noutro plano, que não é o movido pela paixão, reina a mais absoluta conivência entre eleitores e candidatos corruptos. A conivência ocorre na troca do voto por favores e benefícios. Haverá quem leve em consideração os graves problemas sociais vividos por extensa parcela da população e as necessidades decorrentes da pobreza. É explicação, mas não justificativa. Haverá quem identifique, com base em estudos aprofundados, que boa parte dos eleitores, considerando que razoável parcela dos políticos corruptos vai invariavelmente chegar a ela, avalia correto exigir contrapartida pelo voto. Qualquer que seja a tentativa de desculpa, no entanto, revela que o problema é do conhecimento geral ou quase isso.
Assim, não haverá como isentar o eleitor de responsabilidade pelo que ocorre na política do país, uma vez que não existe como negar a consciência que detém dos esquemas de corrupção. Pode não ter noção de como funciona, mas sabe que existe. Pode não ser agente ativo, mas se beneficia conscientemente do processo. Em certo grau, já não é mais nem exagero dizer que amplas parcelas do eleitorado procuram deliberadamente os agentes da corrupção em períodos eleitorais ou não.
Em defesa do eleitor, costuma-se alegar que ele não tem poder para mudar a situação. Os políticos vão sempre agir para facilitar, com favores, a conquista de voto. Não deixa de ser verdade. O dono dos instrumentos de corrupção (capital, poder e benefícios públicos) serão sempre os grandes responsáveis pela corrupção e a fraude ao processo democrático, inclusive, criminalmente, mas já não pode se dizer, mesmo com a contestação da ciência, que o eleitor não tenha certa culpa em cartório.
É triste, mas essa é a verdade.