Em dias que a mente trava como a frear qualquer possibilidade de refletir sobre as mais banais coisas do cotidiano nos cutuca uma reflexão do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que nos anima a refletir quando diz: “Estou cansado, no final da estrada (…) Mesmo assim, vejo com alegria o que fiz, sem me intimidar com a opinião dos outros.”
E, espelhando Schopenhauer, nossa sempre atual Clarice Lispector nos ensina que: “A minha e a nossa exaustão não vêm do que fizemos, mas do que acumulamos em silêncio dentro da mente”.
Abandonando a seara literária e filosófica imergimos no cotidiano onde, assiduamente, nos deparamos com situações e pessoas colocando-nos em berlindas onde somos confrontados com opiniões, posições, posturas que, sem nenhuma intimidade com sua experiência de vida, lhes atribui conceitos, lhes exige posicionamentos e lhes cobra direções e formas de pensar e encarar os fatos cotidianos, os eventos políticos, as personalidades e autoridades.
E, quando nos retraímos em não nos posicionar jorram os mais estrambóticos adjetivos, geralmente pejorativos e agressivos: “vendida, reacionária, traidora, etc., etc.”
Situações, portanto, que nos causam cansaço e, muitas vezes, desânimo.
Cansaço que ganha novos contornos em momentos de maior efervescência social, política e intelectual, como os períodos eleitorais. Momentos em que você é, diuturnamente, cobrada e desafiada a manifestar sua opinião e sua posição sobre candidaturas, sobre posicionamentos de candidatos e grupos políticos, sobre indicação de voto.
E, como nos lembra Clarice Lispector, vamos silenciando, dentro de nós, quando apenas e tão somente possibilitamos o desejo de sermos nós, com posições, posturas e conceitos que, necessariamente, não carecem estar ungidos pela totalidade de opiniões e gostos.
E, sobretudo, quando somos conhecidas pela história e militância profissional, política, cultural, social.
Assim, para todos os gostos você deve ter uma posição que, maquiada e produzida em série pelo apreço popular, sempre se encaixa na expectativa de quem te aborda e te cobra.
E, desta forma, como nos inspira novamente Clarice Lispector: “Estou cansada de mim. Há dias em que a minha própria companhia me pesa como uma condenação inútil”.
Ora, Lispector, com toda admiração que te dedico, também busco inspiração em outras paragens. E, assim, troco dois dedos de prosa com Caio Fernando Abreu, quando me diz: “Porque aprendi que a vida, apesar de bruta, é meio mágica. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola.”
E, de tantos e quantos coelhos e cartolas somos portadores!