Meus caros e raros. Temos uma nova eleição para presidente da República. Esse é o fato que vai nortear todas as conversas e atenções nos próximos dias. Como aqueles velhos taxímetros “capelinha”: vai ser feita outra corrida.
E o que temos pela frente? De concreto, os resultados do primeiro turno, em que Flávio Bolsonaro ficou à frente de Lula, que concorre à reeleição, por pequena margem de votos. Temos um Congresso que saiu dessas urnas com a extrema direita muito fortalecida, em detrimento do Centrão e da direita moderada. O Sul e o Sudeste viram um crescimento muito forte dessas forças extremistas, que, em vez de apresentarem programas de governo, se focaram nas pautas de costumes e nas de segurança pública.
Outras democracias de nosso subcontinente, a América do Sul, já estão sendo governadas pela extrema direita alinhada com os Estados Unidos de Donald Trump. E o Brasil, indo nessa tendência extremista, seria não a cereja do bolo, mas a coroação de todo esse processo, que varre a América Latina, para se tornar uma espécie de país-vassalo da potência do Norte, como já fomos em 1964.
Para minha pessoa, que já teve a oportunidade de ler autores como Platão, Aristóteles e Marco Aurélio e, mais recentemente, Como as Democracias Morrem, obra que discorre sobre o esgotamento da democracia americana, que entregou o Partido Republicano a um outsider sem as credenciais que antes eram exigidas para um político concorrer à Casa Branca, há, por aqui, nas poucas páginas de seu prefácio, uma ligeira análise sobre como outro político sem expressão conseguiu chegar a ser nosso presidente. Fenômeno mundial, com profundas raízes fincadas em nosso solo. As consequências estão aí, na candidatura de Flávio Bolsonaro, filho do primeiro, com enormes perspectivas de vitória. O bolsonarismo não acabou, apenas mudou de nome…
Agora, para que se vença essa tendência e se vire essa eleição, é preciso fazer o que não foi feito no primeiro turno, e ainda mais, pois o outro lado também sabe onde estão os votos que faltaram para ter vencido logo no primeiro turno. E eles sabem trabalhar com bastante competência e com o “auxílio luxuoso” de uma imprensa tendenciosa, das redes sociais, que misteriosamente não tiveram a devida atenção que mereciam, e de um tribunal eleitoral hostil. Tudo isso favorece o candidato da extrema direita, que, como toda extrema direita, não tem interesse no jogo democrático…
No meio disso, ficamos nós, o povo, sem saber o que o futuro nos reserva nos próximos dias: um presidente comprometido com o sistema democrático, que vai passar quatro anos acuado por um Congresso hostil, ou outro que vai tentar desmantelar a nossa democracia, construída a duras penas pela Constituição de 1988.
Com a palavra (ou o voto), o eleitor.
P. S. — Estas linhas são dedicadas ao meu grande amigo Murilo Siebra, que descansou — ou, como acreditava, desencarnou — na cidade do Crato há poucos dias. Murilo foi um dos gerentes de nossa agência do Banco do Brasil que mais defendia a ideia de que o banco a que servia era um banco de desenvolvimento. Depois de aposentado, juntamente com sua adorável esposa, dona Lúcia Siebra, dedicou-se a propagar a doutrina do kardecismo em nossa cidade. Merecia toda uma crônica, mas fica aqui meu reconhecimento, bem como o de toda a nossa sociedade, a que Murilo tanto serviu.