Depois de muito vou-não-vou, Flávio resolve ir a um debate. Pavoneou dias atrás que o debate lhe daria a oportunidade de enfrentar Lula, antecipando-se vencedor. Seria uma disputa televisiva entre o “velho” e o “novo”? Essa possibilidade me leva a uma história real.
Conto como foi.
Recife 1986. A TV era a rainha do pedaço. Aguardava-se com enorme ansiedade o debate da Globo entre os candidatos a governador Miguel Arraes e José Mucio Monteiro, um jovem engenheiro, dinâmico secretário de transportes que vendia a ideia de ser o “novo”. Arraes, governador deposto pelo golpe de 1964, regressara há pouco tempo de 14 anos de exílio, representava o “velho”. Afeito às câmeras de TV, inteligente, simpático, envolvente, Mucio provocava receios na Frente Popular.
Zé Mucio esperava ter no debate a chance de reverter os números adversos de todas as pesquisas de opinião. Arraes desacostumado com a televisão, fala entre pigarros, nos dava a todos nós da Frente Popular um tremendo nervosismo.
Houve uma reunião na casa do superintendente da Sudene, Dorany Sampaio, com um restrito grupo para um ensaio. Cheio de dedos, os presentes arriscavam palpites. Deveria fazer assim e assado, enfatizar isso e aquilo, fixar bem olhar na câmera, deixar forte mensagem aos jovens. Arraes soltando baforadas, a tudo ouvia em silêncio. A frustração dos “assessores” foi enorme. Não presenciei, mas ouvi relatos de quem lá estava.
E o debate como foi?
A Globo não fez sacanagem. Seguiu o modelo da época sem armadilhas. Lá para as tantas, ao ser perguntado o que fazia no tempo do regime militar, Mucio deitou e rolou. Dedicara-se ao estudo, muito aprendera sobre Pernambuco, tornou-se o grande executor de obras do governo Roberto Magalhães. “Eu me preparei para governar Pernambuco”. Na sua vez de responder, entre pigarros, Arraes com voz arrastada e incisiva, fulminou:
– Enquanto o meu competidor estudava nos melhores colégios e universidades, a juventude brasileira era amordaçada, perseguida, presa, torturada e morta nos porões da ditadura.
Gente, eu vi, todos vimos a rosto de Zé Mucio transtornado. A face morta. O sonho de virar o jogo escorreu nas palavras verdadeiras de quem vivera na pele a realidade brutal da repressão. Logo em Pernambuco que testemunhou o trucidamento do jovem padre Henrique Pereira, e ainda chorava o desaparecimento do corpo de Fernando Santa Cruz! (Anos depois, se soube que foi incinerado numa usina de açúcar de Campos dos Goytacazes, pertencente a um membro da TFP).
O resto da história é conhecido.
José Mucio tem repetido que a maior lição de sua vida política foi ser derrotado por Miguel Arraes. Hoje ele é ministro da Defesa do Lula III, prestando com seu jeito conciliador bons serviços à democracia.
E Flávio Bolsonaro?
O 01 tem muito o que aprender.
O desenho do resultado das urnas no segundo turno está nas ruas do Brasil inteiro. Os estudantes resolveram reeditar o fantástico movimento dos “caras pintadas”, que findou por defenestrar do poder Fernando Collor. Agora mobilização é preventiva. O dia 25 vem aí.
P S – Escrevo estas linhas quinta-feira, dia 15. Nem sei se Flávio vai mesmo ao debate.