O hábito de ouvir rádio (2)

Quando o primeiro rádio entrou na minha casa, em 1953, meu pai fez recomendações para o seu bom uso. Homem conservador nos costumes e nas ideias, adepto da antiga Ação Integralista Brasileira e, depois, filiado ao Partido de Representação Popular, criado pelo grande chefe Plínio Salgado. Cristiano Cartaxo falou mais ou menos assim: 

– Este rádio é para ouvir notícias, músicas selecionadas, programas educativos. Novelas, jamais. Nem baião de mal gosto e essas coisas nocivas à família.

Ouvimos em respeitoso silêncio.

Durante muito tempo nos deliciamos com aquela maravilha, que trazia um pedaço do mundo para perto, pelas ondas de emissoras de Fortaleza, Recife, Salvador, Rio e São Paulo. Por serem mais potentes, o som vinha com menos interferências. De vez em quando sintonizávamos a Rádio Tabajara. A Borborema, de Campina Grande já comentei no artigo anterior. Mas as preferidas eram as Rádios Jornal do Comercio e Clube de Pernambuco, Ceará Rádio Clube e Iracema, de Fortaleza, e a Sociedade da Bahia.

Quando chegou a Cajazeiras energia elétrica, produzida nas turbinas do Açude de Coremas, foi um arraso! Passamos a escutar o Grande Jornal Falado Tupi, da Rádio Tupi, de São Paulo, noticiosos e outras atrações de emissoras como Globo e Nacional, do Rio.

Minha mãe controlava o aparelho.

Dava gosto ouvir programas políticos, as falas de Carlos Lacerda. Um deles, O Parlamento em Ação, reproduzia debates entre deputados federais, senadores. Minha mãe e eu, não perdíamos um sequer! Lembro de um bate-boca entre Afonso Arinos (UDN-MG) e o jovem deputado gaúcho Fernando Ferrari (PTB). Lá para as tantas, Ferrari soltou uma bobagem jurídica. Arinos o aparteou em tom irônico! Em cima da bucha Ferrari deu o troco:

– Se não aprendi bem, nobre deputado, foi porque Vossa Excelência não nos deu boas aulas de Direito Constitucional!

Minha mãe adorava embates de alto nível, embora não nutrisse simpatia pelas ideias nacionalistas de Ferrari, por exemplo, defensor do governo de Getúlio Vargas, a quem dona Isabel dedicava pouca afeição política. Minha formação foi marcada por esses momentos. Lia também números esparsos de O Maquis, trazidos por algum parente ou amigo de meu pai. A revista refletia as ideias defendidas pelo Clube da Lanterna, criado por Carlos Lacerda para torpedear o governo democrático de Getúlio Vargas (1950-1954). Antes da eleição de 1950, Lacerda deu este mote:

“O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.”

(Há alguma semelhança hoje?).

Vargas tomou posse. Seu governo deu garantias aos trabalhadores, fundou as bases do desenvolvimento e da soberania nacional, criando ferramentas de apoio, como o BNDE, BNB, Petrobras. Tentou limitar a remessa dos lucros de empresas estrangeiras, fundar a Eletrobras. Por isso foi Getúlio foi massacrado.

Vivemos num mar de lama, acusavam!

Acuado, escreveu a carta-testamento, que eu ouvi pelo rádio, em 24 agosto de 1954, no silêncio da sala da casa onde nasci em Cajazeiras. A análise de seu conteúdo mudou o rumo de minha formação política.

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