Meus caros e bravos leitores. Tendo em vista que a aproximação das próximas eleições é a única matéria que vem circulando em todos os meios de comunicação nos últimos dias, eu vou tentar escrever sobre outro tema que, de alguma forma, se correlaciona com esse “momentum” em que, em tese, se decidem os destinos de nossa nação e de nosso estado, e que também haverá de produzir consequências paroquiais.
O que podemos afirmar com certeza é que nosso país e nosso estado são muito maiores do que os homens que irão sair vitoriosos das urnas. O Brasil, o maior país da América Lusófona, que não é tão lusa assim, pois incorporou elementos dos nativos e dos afrodescendentes escravizados — o Brasil é o mais populoso país de afrodescendentes fora da África, e o segundo do mundo —, e os nativos, mesmo dizimados, estão presentes no DNA dos brasileiros de uma forma determinante: no interior do Nordeste, nada menos de 20% de todas as amostragens de DNA coletadas em um estudo para determinar a exata natureza dessa parte de nossa população têm fortes traços dos indígenas.
Esse é nosso país, mestiço e plural, tanto na cultura como nas tradições. O milho, por exemplo, nunca fez parte da cultura europeia, mas faz parte das tradicionais festas juninas daqui… Colaram com o dia de São José, que corresponde ao equinócio da Primavera, e introduzimos a magnífica culinária indígena nesses festejos. O culto por São Jorge também foi sincretizado, tanto com uma divindade africana, e o Dragão e a Lua têm um significado próprio, correspondência inexistente na Metrópole. Assim, o Brasil tanto de pertencimento — língua, escrita, governo — como de afastamento — hábitos alimentares, sincretizações com outros cultos, miscigenação, entre outras diferenças — com a Europa.
Temos nosso pequeno estado, a Paraíba, que muitos de fora têm uma ideia depreciativa, como se fôssemos rudes e ignorantes. Não, muito pelo contrário; a ignorância vem exatamente de quem não teve a oportunidade de conhecer nossa terra e nossa gente. Somos inteligentes e extremamente acolhedores.
Esse preconceito tem origem no fato de a Paraíba, em quase sua totalidade, estar situada dentro do chamado “polígono das secas” e, com o advento periódico desse fenômeno climático, muitos de nossos nativos não tiveram alternativa senão emigrar para outras regiões, onde aceitavam os trabalhos mais subalternos que os chamados “sulistas” ofereciam, e que contribuíram para erguer as grandes obras que foram lá construídas. Foram e, até hoje, são vítimas de preconceitos indevidos e absurdos.
Aquele povo não tem ideia do que é fazer três plantas no roçado e perder duas. Uma família que sobreviveu à seca de 1877 (a minha) tinha, nos “girais”, milho estocado para três anos, mas, se o distribuíssem para os necessitados, eles mesmos passariam fome.
Somos muito trabalhadores e, os que não eram, a Lei de Darwin os eliminou. Por isso, tem sentido a famosa frase de Euclides da Cunha: “O sertanejo é antes de tudo um forte”, pois os fracos já foram eliminados…
Por fim, Cajazeiras, uma cidade ímpar em todo o estado, pois não se criou à margem de um rio, fazenda, feira de gado, nem de algum centro de troca de mercadorias, mas em torno de um colégio. Só essa sua vocação já a diferencia das demais.
Sou de lá. Meu berço, e onde haverão de remanescer meus restos mortais. Tudo isso tem um significado absolutamente extraordinário.