Como todo mundo já comentou, o evento que a Rede Band de Televisão realizou no último domingo com os dois candidatos que disputam o segundo turno das eleições para presidente – Flávio Bolsonaro e o presidente Lula – foi quase tudo, menos um debate.
Da mesma forma como há uma generalizada desconsideração ao que se tornou o debate, especialmente, a estúpida troca de acusações entre os candidatos, o baixo nível das formulações, a ausência de propostas, planos e ideias de governo e o espantoso desrespeito ao eleitor-telespectador, por consequência lógica, impinge-se culpa imperdoável aos debatedores.
Logo após o debate, dirigentes e jornalistas da própria Band, com convidados, durante um programa de análise do confronto, foram quase unânimes na responsabilização dos candidatos pela baixaria.
E foram. Só que essa não é uma questão fechada, feito moeda com apenas uma face. Os candidatos deram uma imensurável demonstração de desapreço ao eleitor, à democracia, às empresas de comunicação e, mais grave, a eles próprios. Porém, não são os únicos culpados pelo baixo nível daquele debate e de quase todos realizados na atual campanha eleitoral.
Os veículos de comunicação- televisão, rádio, jornais, portais, etc., parecem trabalhar com a lógica subterrânea que permeia o meio, que é a de que o ouvinte, telespectador, leitor, internauta e por aí vai, gosta de violência, briga de baixo calão, confusão feia. É a velha concepção de que o povo gosta de sangue ou de ver “casos de família”. O vale-tudo pela a audiência.
Excetue-se alguns poucos casos, mas a maioria das regras de debates com candidatos privilegiam demasiado o confronto direto. Quase nunca estimulam o debate sobre os problemas e planos de governo.
O que a Band poderia esperar oferecendo 30 minutos absolutamente livres aos dois candidatos, sem mediação alguma, a não ser a do controle do tempo? Outros debates oferecem outras fórmulas, mas o intuito é o mesmo: extrair o lado mais imoral, indecente, descarado e sanguíneo dos debatedores.
Não existe possibilidade de realização de debates de alto nível se os organizadores abdicam da mediação, entendida aqui em sentido mais amplo, aquele que começa na concepção do programa, na elaboração da pauta que precisa levar em consideração as preocupações do país, e a participação efetiva no debate, com a formação de perguntas e reperguntas que possam obrigar os candidatos a apresentarem seus verdadeiros programas de governo e suas sinceras intenções. E mais: não se deveria deixar de fazer a checagem de dados e informações em tempo real para medir o grau de honestidade política e intelectual dos candidatos. Assim, se montaria um debate de respeito.
Por derradeiro, não dá para deixar de apontar os culpados em última instância. A jornalista Adriana Araújo, mediadora do programa, disse que o nível do debate era a imagem da política brasileira na atualidade. Verdade. Realidade que é resultado da vontade dos eleitores. Em suma, o baixo nível dos debates eleitorais é o espelho de nossa sociedade nacional. Ou da estupidez nacional.