Cem anos do ataque do cangaceiro Sabino Gomes a Cajazeiras

WESCLEY RODRIGUES DUTRA

Em 28 de setembro de 1926, Cajazeiras enfrentou uma das noites mais dramáticas de sua história. Liderados por Sabino Gomes, um dos principais homens de confiança de Lampião, cerca de trinta cangaceiros invadiram a cidade e encontraram uma população preparada para resistir. Cem anos depois, o episódio permanece como uma das páginas mais marcantes e ainda pouco conhecidas da história da cidade.

A ameaça, naquele momento, não era completamente inesperada. Os rumores de que um grupo de cangaceiros se aproximava haviam chegado dias antes. Parentes e amigos de cajazeirenses residentes em cidades do Ceará enviaram telegramas alertando sobre a possibilidade de uma invasão. As autoridades também sabiam que homens ligados a Lampião circulavam pela região de fronteira entre Paraíba, Ceará e Pernambuco.

A experiência do ataque a Sousa, ocorrido em 27 de julho de 1924, ainda estava presente na memória dos sertanejos. Por isso, quando os boatos ganharam força, a cidade de Cajazeiras se mobilizou. O delegado Tenente Elias Fernandes ficou responsável pela organização da defesa, contando com a participação de homens da comunidade. Entre eles estavam Romeu Menandro Cruz, Jaime Carneiro, Praxedes Pitanga, Raimundo Anastácio (antigo cangaceiro que vivia em Cajazeiras), Joaquim Sobreira Cartaxo, Major Epifânio Sobreira, José Sinfrônio de Assis, José Inácio da Silva e o Padre Gervásio Coelho.

A cidade que os cangaceiros encontrariam naquele dia, portanto, não era uma cidade surpreendida pelo medo. Era uma comunidade que sabia da possibilidade de um ataque e se preparara para enfrentá-lo.

O cangaço, naquele período, havia adquirido uma estrutura relativamente organizada. Lampião dividia seu grupo em subgrupos comandados por homens de sua confiança, os chamados lugares-tenentes. Sabino era um deles. A dimensão de sua importância pode ser percebida em uma entrevista concedida por Lampião ao médico Otacílio Macêdo, publicada pelo jornal O Ceará em 17 de março de 1926. Questionado sobre quem assumiria o comando caso morresse, Lampião teria indicado seu irmão Antônio Ferreira ou Sabino Gomes.

Poucos meses antes do ataque a Cajazeiras, Sabino já havia adquirido notoriedade. Em 7 de junho de 1926, seu grupo atacara Triunfo, em Pernambuco, episódio que teve repercussão na imprensa daquele estado. Mas havia uma particularidade que tornava Cajazeiras um alvo especialmente interessante para Sabino: ele conhecia a cidade.

Antes de ingressar no cangaço, Sabino havia vivido em Cajazeiras, no início da década de 1920. Chegara à cidade vindo da região de Princesa Isabel e trabalhara ligado ao comerciante Marcolino Diniz, que possuía uma importante casa comercial instalada na Praça Coração de Jesus. Sabino, portanto, não chegaria a um lugar desconhecido. Conhecia suas ruas, seus espaços e a dinâmica da cidade. Essa familiaridade poderia representar uma vantagem para quem pretendia invadir a urbe.

Vindos do Ceará, cerca de 26 a 30 cangaceiros atravessaram os sítios Marimbas, Tambor, Redondo e Baixa Grande. Na manhã daquele dia 28 de setembro, no sítio Baixa Grande, Raimundo Cassimiro e seu filho, Francisco Cassimiro, foram assassinados. Segundo os relatos preservados pela memória local, os dois teriam sido mortos depois de se recusarem a entregar dinheiro aos cangaceiros.

Por volta do meio-dia, o grupo chegou ao sítio Remédios, hoje integrado à área urbana de Cajazeiras. Ali, os homens deixaram os cavalos e decidiram, mais tarde, prosseguir a pé. Por volta das quatro da tarde, começaram a marcha em direção à cidade. Logo na entrada, os cangaceiros encontraram o militar Domingos Monteiro, que recolhia animais soltos na rua. Ele foi morto com um tiro na cabeça.

Mais adiante, no final da antiga Rua da Matança, hoje Rua Doutor Coelho, encontraram Cícero Ferreira Lima, conhecido como “Pé de Cágado”. A tradição oral conta que o homem, que possuía deficiência física, teria sido tratado com brutalidade por Sabino e afirmado que não tinha medo de cangaceiro. A resposta teria provocado a reação do líder, que o golpeou com o cabo do fuzil e, em seguida, disparou contra ele.

No final da tarde, os cangaceiros avançaram pela antiga Rua do Comércio em direção à Praça Coração de Jesus, onde se encontrava a antiga igreja, situada nas proximidades do primeiro cemitério da cidade. A posição era estratégica: a partir dali o grupo poderia utilizar as construções e o próprio templo como proteção para avançar em direção ao Mercado Público, onde estavam concentrados alguns dos defensores da cidade.

Ao que indicam os relatos sobre a movimentação do grupo, a intenção era alcançar o coração comercial de Cajazeiras e, a partir dali, avançar sobre a área onde estavam localizadas as residências das famílias mais abastadas. Para intimidar a população e desorganizar a resistência, os cangaceiros gritavam, proferiam insultos e imitavam berros de animais enquanto percorriam as ruas.

A estratégia, contudo, encontrou uma resistência maior do que provavelmente esperavam. Os defensores mantiveram suas posições e impediram que o grupo avançasse em direção ao centro. Diante da dificuldade, Sabino decidiu recuar e buscar outra rota para contornar a defesa. Seguiu então pela antiga Rua da Tamarina, atualmente Rua Coronel Guimarães, na tentativa de contornar as posições dos defensores e chegar novamente à região central por outro caminho. Foi nesse momento que morreu o alfaiate Eliezer Alexandre. Ao abrir uma fresta da janela de sua residência para observar o confronto, acabou sendo atingido por um disparo.

Os cangaceiros prosseguiram até os fundos da residência do Major Epifânio Sobreira. Uma das portas do casarão foi derrubada e teve início um novo confronto. O Major, acompanhado de seu vaqueiro, José Inácio, reagiu. Durante os disparos, Epifânio Sobreira foi atingido na perna. Mesmo ferido, continuou resistindo e conseguiu impedir o avanço dos invasores.

A resistência de Cajazeiras produziria, então, um dos episódios mais curiosos daquela noite: José Sinfrônio de Assis era responsável pela usina elétrica da cidade, cujo motor gerador funcionava a gás. Ao perceber a situação, teve uma ideia que entraria para a memória daquele episódio. Sinfrônio desregulou o funcionamento do motor, provocando estampidos semelhantes a tiros. Na escuridão da noite, sem conseguir identificar a origem das explosões, os cangaceiros teriam interpretado os sons como a chegada de um reforço policial.

Diante da resistência encontrada e acreditando que novas forças estavam chegando, o grupo decidiu abandonar Cajazeiras por volta das dez horas da noite. Antes da fuga, os cangaceiros ainda incendiaram a residência de Martinho Barbosa Lima.

Quando a noite terminou, Cajazeiras contabilizava cinco mortos diretamente relacionados à passagem do grupo: os agricultores Raimundo Cassimiro e Francisco Cassimiro, o militar Domingos Monteiro, Cícero Ferreira Lima e o alfaiate Eliezer Alexandre. O Major Epifânio Sobreira ficou ferido durante o confronto.

Por que Sabino atacou Cajazeiras? Essa talvez seja uma das perguntas para as quais a história ainda não oferece uma resposta definitiva. A tradição oral preservou diferentes explicações. Uma delas afirma que Sabino teria buscado vingança contra pessoas de Cajazeiras em razão de uma suposta agressão sofrida quando ainda vivia na cidade. Tal agressão teria sido encabeçada pelo militar Lourenço Dunga.

Outra interpretação considera que o ataque poderia representar uma oportunidade para Sabino afirmar sua própria liderança dentro do universo do cangaço, demonstrando que era capaz de comandar uma investida contra uma cidade importante. Há ainda uma terceira versão que envolve diretamente o comerciante Marcolino Diniz, antigo patrão e conhecido de Sabino Gomes desde o período em que este viveu em Cajazeiras. Segundo essa narrativa, Marcolino, que enfrentava dificuldades financeiras e acumulava dívidas, teria recorrido à antiga relação com Sabino para articular a invasão da cidade. A empreitada teria como objetivo a obtenção de recursos, que seriam posteriormente divididos entre os envolvidos. Nenhuma dessas hipóteses, contudo, permite afirmar de maneira definitiva por que Sabino decidiu atacar Cajazeiras.

O episódio é significativo justamente porque ajuda a relativizar uma imagem recorrente construída em torno do cangaço: a de grupos absolutamente invencíveis, capazes de dominar qualquer localidade apenas pelo medo.

Cem anos depois, talvez um dos aspectos mais significativos daquele episódio não esteja apenas na violência praticada pelos cangaceiros, mas na reação de uma comunidade que, avisada da ameaça, organizou-se para enfrentá-la. Cajazeiras não conseguiu impedir que o cangaço chegasse às suas ruas, mas conseguiu impedir que os invasores alcançassem seus principais objetivos.

É essa memória que precisa ser preservada. Não apenas porque registra uma passagem do cangaço pela Paraíba, mas porque revela um capítulo da própria formação histórica de Cajazeiras. O ataque de 28 de setembro de 1926 deixou mortos, medo e destruição, mas deixou também uma narrativa de resistência. Cem anos depois, lembrar aquela noite é mais do que revisitar a violência do cangaço: é reconhecer a história de uma cidade que, diante da ameaça, decidiu resistir.

WESCLEY RODRIGUES DUTRA É PROFESSOR

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