Meus caros e raros. Em nossa cidade, bem como na nossa família, há histórias que tenho que relatar antes que eu as esqueça, ou que caiam no esquecimento geral.
A primeira me foi relatada pelo meu tio afim, Dr. Severino Cordeiro, que, antes de ser o industrial que eu conheci, era o “Chefe da Polícia” do governo de Argemiro de Figueiredo. Ele nos contou a seguinte história: para fazer a limpeza de sua casa, em João Pessoa, ele requisitava um preso de bom comportamento. Certa vez, o apenado perguntou se o Dr. Severino confiava na segurança de sua casa. Ele respondeu que sim e retrucou, perguntando o porquê daquela pergunta. O preso, que era um arrombador profissional, disse que conseguiria abrir todas as portas e janelas de sua casa por fora.
Aceito o desafio, Dr. Severino fechou sua casa como de costume, e o “profissional” abriu todas as portas e todas as janelas de sua casa por fora. Depois, foi explicando como se precaver para o caso de algum “colega” fazer coisa semelhante em sua casa.
Depois, temos o caso do afamado “Zé Ladrão” de Cajazeiras, dessa vez, por uma razão oposta: disseram que ele, quando foi furtar uma bodega na Rua Dr. Coelho, amarrou uma corda num caibro do telhado e, com nós atados, foi descendo para praticar seu delito. Mas, no meio da descida, ele escorregou o pé num desses nós e terminou dependurado de ponta-cabeça, sem poder voltar para a corda.
Quando se viu naquela situação, desesperado, gritou a plenos pulmões: “Socorro! Eu estou roubando! Venham me prender!” Os vizinhos acordaram e chamaram a polícia para prender o meliante desastrado.
Ainda temos o folclórico investigador “Alcântara”, que, ao investigar um furto de uma residência, vendo que o meliante, ao fugir, deu “um escorregão” na parede, e vendo a marca longa, chegou à seguinte conclusão: “Quem roubou essa casa foi um gigante…”
Noutra ocasião, ele estava passando pela parede do “Açude Grande” e perguntou a um fumante: “Você está fumando ‘papaconha’?” O interlocutor falou que estava fumando “maconha”. Então, Alcântara disse que, se ele soubesse que alguém estivesse fumando a tal “papaconha”, que o avisasse. E se foi…
Tem uma de carcereiros: duas de pessoas de quem eu gosto muito mesmo: Wilson Moreno e Bocão.
No primeiro caso, o Corregedor dos Presídios da Paraíba chegou em Cajazeiras para uma visita surpresa. Verificou o livro, todas as anotações em dia; foi verificar as celas, mandou desocupar uma e constatou que as condições sanitárias eram excelentes. Fugas: zero.
Então, o Corregedor, muito satisfeito, pediu o nome e a matrícula do carcereiro para fazer um elogio e recomendar uma promoção. O “carcereiro” respondeu:
“Meu nome é José Antônio, mas sou conhecido por ‘Barata’, e não sei o que é essa tal de matrícula!”
Aí, o Corregedor perguntou:
“Então você não é o carcereiro?”
Barata respondeu:
“O carcereiro é Wilson Moreno, que foi para um casamento em São Paulo; eu sou um dos presos que ele deixou para cuidar da Cadeia.”
Wilson chegou com a demissão publicada e teve que responder a um processo administrativo. Muito azar, mas era o casamento de Wilton, um dos maiores jogadores da história do Atlético, seu irmão…
O outro caso foi que chegou a hora da janta na Cadeia e nada do carcereiro aparecer. Então, os presos, com fome, começaram uma rebelião. Foram, às pressas, procurar o carcereiro da época, Bocão, que estava num bar nas proximidades, assistindo a um jogo de futebol.
Avisado, ele retrucou:
“Você acha que eu vou deixar de assistir à prorrogação da final do campeonato, com o Fluminense disputando, para me incomodar com aquele monte de vagabundos? De jeito nenhum.”
São essas algumas histórias que eu reputo dignas de registro, para que não sejam esquecidas nessa bruma dos tempos, numa sociedade de tão pouca memória…
É isso.