A copa de 1970 foi extraordinária para o Brasil pela conquista do tricampeonato e a posse da Taça Jules Rimet. E também por ter sido a mais explorada politicamente de nossa história. Por isso, recordo alguns lances, a partir de uma situação particular de alcance geral.
Nós morávamos no Recife.
Recém-casado com uma baiana, chegamos de Salvador, eu transferido pela Sudene, em 1969, pouco depois do trucidamento do padre Henrique, auxiliar de Dom Helder. Nosso círculo de amizades era muito restrito. Quatro casais com afinidades políticas, saíamos juntos em fim de semana ou nos reuníamos na casa de alguns de nós. Foi fácil combinar onde assistir os jogos do Brasil.
Brasil x Peru foi no meu apartamento.
Antes de prosseguir, é bom lembrar que o Brasil sofria o período mais repressor da ditatura, sob o governo do general Emílio Médici (1969-1974). Tempo do “Brasil Grande”, de obras gigantescas de infraestrutura realizadas, enquanto escondia a brutal repressão, pendurada no AI 5, de 13 de dezembro de 1968, e no pau-de-arara. Rigorosa censura nos levava a escutar emissoras estrangeiras como BBC de Londres, Voz da América, Rádio Moscou. Ouvíamos notícias de prisões, guerrilhas, assaltos a bancos, torturas e mortes de presos políticos. Quase nada sabíamos. (Os filmes “Ainda estou aqui” e “O agente secreto” registram essa realidade).
No trabalho ninguém falava. Havia um “agente” do SNI pronto para denunciar.
Dos quatro amigos apenas um não estava mais na Sudene, demitido após Inquérito Policial Militar. (Voltou anos depois, com a anistia). Acompanhamos os jogos, reunidos pelo prazer esportivo e patriótico, muito embora nosso espírito de patriotismo estivesse um pouco toldado diante da escancarada exploração política feita pelo governo do general Médici.
A intervenção oficial ostensiva começara com a dispensa do técnico da seleção: o famoso comentarista esportivo João Saldanha, que tivera passagem pelo PCB, no tempo da legalidade. Saldanha foi substituído por Zagallo, às vésperas da viagem dos atletas para o México, de maneira despótica, com a clara interferência dos militares, impondo a alternativa que mais convinha aos planos de “popularizar” Médici, exaltado pela mídia como o “torcedor número um”.
Isso mesmo. Aquela atitude se ajustava à imagem, largamente difundida, de Médici e seu radinho de pilha ao ouvido na torcida do Grêmio, seu clube preferido. Se bem que o Flamengo passou a ser também… A imagem espalhada em jornais, revistas, televisão Brasil adentro, contrastava com quem permitia e autorizava a abominável tortura, institucionalizada, nos antros clandestinos da ditadura!
Pouco se sabia dessas coisas.
Mas no íntimo torcíamos para ver o Peru vencer. Até porque nessa época aquele país irmão era governado pelo general Juan Velasco Alvarado, que, após dar um golpe de estado, assumira a indústria petrolífera, tentara realizar a reforma agrária e executar um programa nacionalista. Nossa torcida, porém, era silenciosa, quase um sussurro, cheia de desejos, olhares e murmúrios.
E pouco durou.
Ao primeiro gol do Brasil, pulamos e nos abraçamos aos gritos: Brasil! Brasil! Brasil! E tome gol… e tome cerveja!