Memórias de ontem

A tristeza povoa paredes com tintura descascada. Árvores crescidas aleatoriamente e sem nenhum cuidado assumem caminhos ontem povoados de hóspedes e frequentadores de finais de semana. Piscinas e espaços das águas termais apresentam azulejos carcomidos, portas inexistentes e vozes silenciadas.

O restaurante esquecido entre velhas cadeiras e mesas carcomidas me traz à lembrança de Seu Epitácio, o velho garçom que, nas muitas vezes que ali estive, na atividade jornalística, fazendo coberturas de eventos e entrevistando autoridades, vinha com um afetuoso abraço e manifestava o entusiasmo de sempre dizer: “sou fã de Mariana Moreira. Todos os dias escuto a rádio e me emociono e me encanto quando o locutor diz: escreveu Mariana Moreira!”.

Seu Epitácio nos reservava uma mesa estrategicamente situada e nos trazia os pratos mais saborosos, temperados com o carinho de fã.

A recepção do hotel traz os traços e contornos de Dona Etina de Medeiros, sua eterna gerente.

De porte aristocrático, voz mansa, mas firme, decisões administrativas rigorosas, mas humanas, Dona Etina tinha uma visão completa do hotel, da estância termal e dos funcionários e hospedes.

Por ser o hotel pousada obrigatória de governadores do estado, parlamentares, autoridades outras e, também hospedes famosos que vinham atraídos pelas águas termais, anunciadas como portadoras de propriedades terapêuticas, Dona Etina sempre estava presente em todos os espaços, orientando condutas e procederes de funcionários, determinando organização de espaços e preparando formas de serviços oferecidos.

E assim, a Estância Termal do Brejo das Freiras e Dona Etina tinham uma mesma tradução: eram sinônimos de alegria, prazer, bom gosto, e, sobretudo, lazer e entretenimento em uma região carente de espaços dessa natureza.

E a primeira lembrança que alimento do Brejo das Freiras me remete a minha adolescência. Para lá fui com uma irmã mais velha, nas tradicionais excursões que colegas de colégio, de trabalho, sempre realizavam aos domingos, para, mediante pagamento, aproveitar as piscinas e fontes termais do Brejo. Neste dia, vi Dona Etina de soslaio.

Somente quando no exercício da atividade jornalística tive mais aproximação com ela e com o Brejo das Freiras.

E hoje, vendo o Hotel e todo o complexo na solidão do abandono, me chega um sussurro de Seu Epitácio que, do além, me instiga: “Mariana, não esqueça nosso Brejo das Freiras. Escreva alguma coisa que o salve”.

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